Meditação nas Atividades Diárias #1

Prática Informal
Por Mingyur Rinpoche – no Livro “A Alegria de Viver”. Leia a parte 2.

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“No meio da prática, lembrem-se de reconhecer a essência da mente.”
Tulku Urgyen Rinpoche

Algumas vezes, é impossível conseguir alocar tempo para a prática formal todos os dias. Você pode ter de passar horas se preparando para uma reunião de negócios crucial ou talvez tenha de ir a um evento importante, como um casamento ou um aniversário. Você pode ter prometido uma atividade especial com seus filhos, seu companheiro ou seu esposo. Você pode estar tão cansado por tudo o que precisou fazer durante a semana que só quer passar o dia na cama ou assistindo à televisão.

Pular um dia ou dois de prática formal fará de você uma pessoa ruim? Não. Isso reverterá todas as mudanças que você conseguiu quando tinha tempo para se dedicar à prática formal? Não. Pular um dia ou dois (ou três) de prática formal significa que você precisa recomeçar a trabalhar com uma mente indomada? Não.

A prática Formal é excelente porque sentar-se por cinco, dez ou 15 minutos por dia cria a oportunidade de começar a mudar sua perspectiva. Mas a maioria dos alunos do Buda era composta por fazendeiros, pastores e nômades. Entre cuidar de suas plantações ou de seus animais e de suas famílias, eles não tinham muito tempo para se sentar formalmente, com as pernas cruzadas, os braços retos e os olhos corretamente focados mesmo por cinco minutos de prática formal. Sempre havia um carneiro balindo em algum lugar, um bebê chorando ou alguém entrando às pressas em suas tendas ou cabanas para dizer que uma tempestade estava prestes a arruinar a plantação.

O Buda entendia esses problemas. Apesar das histórias fantásticas sobre seu nascimento e criação o descreverem como o filho de um rei abastado que o criou em um palácio fabuloso e repleto de prazeres, suas origens, na verdade, foram muito mais humildes. Seu pai era apenas mais um dentre vários líderes das 16 repúblicas que lutavam para não serem engolidas pela poderosa monar­quia indiana. Sua mãe morreu no parto, quando ele nasceu; seu pai o forçou a casar-se e produzir um herdeiro quando ele era só um adolescente. Ele perdeu o direito à herança quando fugiu de casa para abraçar uma vida que poderia ter um significado mais profundo do que as articulações políticas e militares.

Assim, quando falamos sobre o Buda, estamos falando de um homem que entendia que a vida nem sempre nos dá a oportunidade ou o tempo livre para praticar formalmente. Um de seus grandes legados para a humanidade foi a lição de que é possível meditar em qualquer momento, em qualquer lugar. Na verda­de, trazer a meditação para a sua vida cotidiana é um dos principais objetivos da prática budista. Qualquer atividade cotidiana pode ser utilizada como uma oportunidade para a meditação. Você pode observar seus pensamentos em qualquer momento, repousar sua atenção por um momento em experiências como sabor, cheiro, forma ou som, ou apenas repousar por alguns segundos na experiência maravilhosa de estar consciente das experiências que ocorrem em sua mente.

Ao praticar informalmente, entretanto, é importante estabelecer algum tipo de meta para si mesmo – por exemplo, 25 sessões de meditação informal com duração não superior a um minuto ou dois ao longo do dia. Isso também o ajuda a manter o controle de suas sessões. Monges e nômades muitas vezes controlam as sessões usando rosários de contas para recitação. Mas as pessoas no Ocidente possuem uma variedade muito maior de opções – incluindo calculadores portáteis, PDAs e até aqueles pequenos dispositivos de contagem que as pessoas usam em supermercados. Você também pode controlar as sessões anotando-as. O importante é contar todas as práticas de meditação informal para poder controlá-Ias em relação à sua meta. Por exemplo, se você estiver exercitando a meditação sem objeto, conte-a como uma sessão. Se perder o foco, tente novamente e conte como duas sessões.

Um dos grandes benefícios de organizar sua prática de meditação dessa forma é que ela é conveniente e portátil. Você pode praticar em qualquer lugar – na praia, no cinema, no trabalho, em um restaurante, no ônibus ou metrô, ou na escola –, contanto que se lembre de que sua intenção ao meditar é a meditação. Independentemente de sua opinião da qualidade de sua sessão de medi­tação, o objetivo é não perder de vista suas intenções ao meditar. Quando se deparar com a resistência, lembre-se da história de como a vaca velha urina enquanto anda ao longo do dia. Isso deve ser suficiente para fazê-Io sorrir e lembrá-Io de que a prática é tão fácil, e tão necessária, quanto urinar.

Quando se sentir confortável com 25 sessões curtas por dia, você pode aumentar a meta para cinqüenta sessões informais e, gradualmente, para cem. O mais importante é ter um plano. Caso contrário, você se esquecerá completamente de praticar. Os poucos segundos ou minutos em cada dia durante os quais você se permitiu repousar ou focar o ajudam a estabilizar sua mente, de forma que, quando finalmente tiver uma chance de praticar formalmente, não será como se sentar para jantar com um estranho. Você perceberá que seus pensamentos, sentimentos e percepções são muito mais familiares, como velhos amigos com os quais você pode ter uma conversa sincera.

A prática informal oferece ainda alguns outros benefícios. Primeiro, quando você integra a prática em sua vida cotidiana, evita a armadilha de ficar calmo e tranqüilo durante a meditação formal e ficar tenso e nervoso no trabalho. Em segundo lugar, e talvez o mais importante, praticar informalmente na vida coti­diana aos poucos erradica a concepção errada e muito comum de que é neces­sário estar em um lugar absolutamente tranqüilo para poder meditar.

Ninguém na história da humanidade jamais encontrou um lugar assim. As distrações estão por toda a parte. Mesmo se você subir ao topo de uma montanha, no começo pode sentir algum alívio no silêncio relativo desse local, em comparação com os sons da cidade ou do escritório. Mas, à medida que sua mente se acalmar, você com certeza começará a ouvir pequenos sons, como grilos cantando, o vento agitando as folhas, aves ou pequenos animais andando ou água escorrendo entre as pedras – e de repente o grande silêncio que você estava procurando é interrompido. Mesmo se tentar meditar dentro de casa, com todas as janelas e portas fechadas, há grandes chances de você se distrair – com cocei­ra, dor nas costas, necessidade de engolir, o som da água pingando de uma torneira, o tique-taque de um relógio ou o som de alguém andando no andar de ci­ma. Não importa para onde vá, você sempre encontrará distrações. O maior benefício da prática informal reside em aprender como lidar com essas distrações, não importa que forma elas assumam e não importa o quão irritante elas sejam.

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