Meditação Tonglen

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A prática de tonglen é uma meditação ativa, que através da respiração associada à visualização e à intenção  amorosa e um desejo auspicioso de beneficiar uma pessoa em sofrimento ou grupo, pode nos ajudar no despertar da compaixão inata. É uma das meditações mais praticadas no budismo tibetano. Sogyal Rinpoche sobre a prática de tonglen:  “De todas as práticas que eu conheço, a prática de tonglen, que em tibetano significa “dar e receber”, é uma das mais úteis e poderosa. Quando você sentir que está trancado em si mesmo, tonglen abre-lhe a verdade do sofrimento dos outros; quando seu coração está bloqueado, ela destrói as forças que estão obstruindo-o; e quando você se sente distante de a pessoa que está com dor antes de você, ou amargor ou desespero, ela ajuda você a encontrar dentro de si mesmo e em seguida revelar o amoroso esplendor, a expansão de sua verdadeira natureza. Nenhuma outra prática que eu conheço é tão eficaz em destruir a auto-agarramento, auto-apreço e auto-absorção do ego, que é a raiz de todo o nosso sofrimento e a raiz de toda dureza de coração” – Capítulo 12, “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer”.

Instruções para a Prática de Tonglen
Por Pema Chodron

Para podermos sentir compaixão pelos outro precisamos sentir compaixão por nós mesmos. Para podermos sentir compaixão por pessoas que têm medo, ciúme, compulsões de todo tipo, arrogância, orgulho ou que sejam egoístas, más e tudo o mais, precisamos poder sentir compaixão por nós mesmos, não fugindo da dor que todas estas emoções nos causam. A prática de tonglen nos faz mais compreensivos, mais bondosos; aprendemos um jeito novo de lidar com a dor. Em vez de nos defendermos e nos protegermos, abrimos os nossos corações e permitimos que se instale a dor que vai nos purificar e nos aproximar dos outros. A prática de tonglen é um método de nos associar ao sofrimento—o nosso e o daqueles que nos rodeiam onde quer que estejamos. É uma forma de lidar com o medo de sofrer e dissolver o aperto que sentimos no coração. É sobretudo um método para despertar a compaixão inerente a todos os seres por mais cruéis ou frios que possam parecer.

Começamos a prática trazendo para nós o sofrimento de alguém que queremos ajudar. Por exemplo, uma criança que sofre. Inspiramos o sofrimento e a dor da criança. Depois, na expiração, devolvemos felicidade, alegria, ou o que quer que seja que alivie o sofrimento. Este é o cerne da prática: inspirando a dor dos demais para que possam estar bem e encontrar um espaço em que possam relaxar e se abrirem, devolvemos tranqüilidade ou o que quer que possa trazer felicidade. Acontece muitas vezes não conseguirmos fazer a prática porque nos defrontamos com o nosso próprio medo, resistência, raiva ou a dor que sentimos: reagimos como de costume e nos é mais possível estar plenamente presentes.

Então, desviamos o enfoque da prática do outro para nós mesmos e fazemos tonglen para este sentimento de incapacidade e para os milhões de outros que, como nós neste preciso instante, também são invadidos por fortes sentimentos que impedem de estar plenamente presentes. Talvez possamos até dar um nome ao sentimento: terror, nojo, raiva, carência ou desejo de vingança. Inspiramos por todos aqueles aprisionados nesta mesma emoção e devolvemos alívio ou o que quer que abra espaços para mim e para os inúmeros outros. Talvez não possamos dar um nome à emoção ainda que ela esteja presente no corpo, num nó no estômago, na sensação de uma escuridão pesada, exploramos esta sensação e inspiramos, trazendo-a para nós mesmos, por todos nós e devolvemos alívio para todos nós.

Muita gente diz que esta prática é contrária aos nossos hábitos. De fato, ela é contrária a nossa forma de querer que a vida se desenrole conforme os nossos desejos, fazendo com que tudo venha ao encontro do que queremos quaisquer que sejam as conseqüências para os demais. A prática dissolve as muralhas que erguemos ao redor do coração, dissolve a armadura com que nos protegemos. Em termos budistas diz-se que dissolve a fixação e apego do ego.

Tonglen reverte nosso hábito de evitar o sofrimento e buscar prazer e no processo nos liberamos da velha masmorra do egoísmo. Começamos a ter amor por nós mesmos e pelos demais e começamos a cuidar de nós mesmos e dos demais. Desperta a nossa compaixão e nos conduz a uma visão mais abrangente da realidade, um espaço infinito que os budistas chamam de vacuidade. A prática nos conduz à vastidão da dimensão do nosso ser. Constatamos que o que nos provocava fortes reações anteriormente já não nos parece tão sólido nem tão importante.

Podemos praticar tonglen para os enfermos, para os que estão no processo de morrer, para os que acabam de morrer, para os que sofrem. Pode-se fazer a prática num período da meditação formal ou onde quer que se esteja. Por exemplo, se pela rua encontramos alguém sofrendo ali mesmo inspiramos a sua dor e devolvemos alívio. Ou, o que também acontece, encontramos alguém sofrendo e nos afastamos porque temos medo ou raiva, resistência ou confusão. Assim, ali mesmo, fazemos tonglen para todas as pessoas como nós que querem ser compassivas mas têm medo. Usamos a nossa própria incapacidade como uma alavanca na compreensão das limitações dos demais em todo o mundo. Inspiramos por todos que se sentem incapazes como nós e expiramos para todos nós. Usamos o que aparenta ser veneno como remédio. Usamos o nosso sofrimento como o caminho para alcançar a compaixão por todos os seres.

Quando praticamos tonglen onde quer que estejamos, inspiramos e expiramos, assumindo a dor e devolvendo espaço e alívio. Na meditação formal, tem quatro etapas.

1. Tranquilizemos a mente por uns instantes para que se expanda e se acalme. Esta etapa é denominada “fazer brilhar a bodhicitta absoluta,” uma abertura momentânea em que se manifesta o espaço e a luminosidade naturais da mente.

2. Trabalhamos com textura. Inspiramos uma sensação pesada de calor e escuridão, a sensação de claustrofobia e expiramos a sensação de frescor, de brilho e luz. Inspiramos por todos os poros do corpo e expiramos também por todos os poros do corpo. Praticamos até que estas sensações estejam sincronizadas com a inspiração e a expiração.

3. Trabalhamos com uma situação pessoal e real. A prática tradicional diz para começarmos por alguém que nos seja querido e que queiramos ajudar. Contudo, como aludimos acima, podemos ficar incapacitados de continuar e então praticamos com a nossa própria incapacidade e dor e também para a incapacidade e dor de todos os que passam pelo mesmo tipo de  sofrimento. Por exemplo, se nos sentimos incapazes, inspiramos para nós mesmos e para todos os demais que também se sintam incapazes e devolvendo confiança e alívio de qualquer forma que se queira.*

4. Aumente sempre o campo da sua visualização. Se praticamos tonglen para alguém que nos é querido estendemos a visualização para todos os que estão em igual sofrimento. Se praticamos tonglen para a vítima de um desastre que vemos na TV ou na rua, fazemos tonglen para todos os que sofrem da mesma maneira; a ideia é incluir muitos na prática. Praticamos
tonglen para todos os que estão com a mesma raiva ou medo que também nos invade. Podemos ainda ir mais além e fazer tonglen para aqueles que pensamos serem o inimigo. Os que nos ferem ou ferem os demais. Fazemos tonglen para os que estão passando pela mesma confusão e incapacidade que os que queremos bem e também para nós mesmos. Inspiramos o sofrimento e devolvemos alívio.

Isto demonstra como a tonglen pode ser expandido infinitamente. A medida em que se faz uma prática regular de tonglen a compaixão aumenta. Aumenta a conscientização de que as coisas não são tão sólidas quanto parecem. Praticando gradualmente, segundo a nossa capacidade, constataremos que estamos cada vez mais aptos a sermos úteis aos demais mesmo nas situações que anteriormente nos pareciam insustentáveis.

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Pema Chödrön é monja budista, residente em Nova Escócia, Canadá, na Abadia de Ganpo. Autora de muitos best-sellers, “Quando Tudo se Desfaz”, “Comece Onde Você Está” e “Os Lugares que nos Assustam”entre outros.