Meditação Vipassana

Meditação Vipassana

Por Dzongsar Khyentse Rinpoche
(publicado na revista Gentle Voice de março de 2008)

Vamos começar já com a meditação. Aqueles que têm alguma informação sobre meditação já sabem o que fazer. Para aqueles que estão começando agora, recomendo sentar com a coluna ereta. Colocar algum apoio no chão para que o quadril fique mais alto do que as pernas é uma boa idéia.

Vocês podem respirar. Podem piscar os olhos só se for necessário. Podem engolir saliva, quando necessário. Fora isso, durante o período da prática, até eu dizer “Podem parar”, não se movimentem, não importa o que aconteça. Não se cocem, mesmo se estiverem morrendo de vontade de se coçar! Em vez disso, observem a sensação. Se nada de extraordinário acontecer, apenas observem os pensamentos que forem aparecendo. Não há necessidade de pensar no passado, nem de planejar o futuro. Se não surgirem pensamentos, também está bem assim. Se seu tornozelo doer ou se você tiver vontade de tossir, não faça nada. Não limpe a garganta. Se você esqueceu de desligar o celular e ele tocar, não desligue. Apenas observe o sentimento de culpa. Basicamente, não faça nada. Tudo o que você precisa fazer é ficar atento. Agora, vamos começar.

Talvez vocês já saibam que alguns jornais internacionais conhecidos têm noticiado que a meditação faz bem para a saúde. Cientistas vêm descobrindo que a meditação serve para combater o estresse, para relaxar e assim por diante. Se vocês forem budistas, daqueles genuínos, não estão aqui para cultivar boa saúde. Não estão aqui para relaxar. Pouco importa se estamos tensos ou não, porque, quando as pessoas falam em relaxamento, isso quer dizer que elas relaxam por um período curto e depois “piram” de novo, não é? É por isso que elas estão buscando relaxamento: para que possam causar mais danos a si mesmas e aos outros, depois de uma breve hibernação. Se vocês forem seguidores autênticos de Buda Gautama, alcançar um estado relaxado e livre de tensão não é sua meta. Ou, pelo menos, a definição de relaxamento e tensão deveria ser outra. O que é tensão? De acordo com Buda, qualquer coisa que seja dualista. Contemplar o nascer ou o pôr do sol poderia ser tensão. É mais provável que seja tensão do que relaxamento, de acordo com Buda. O que é relaxamento? A ausência da mente dualista. Nesse sentido, sim, estamos procurando o relaxamento último. Estamos tentando nos livrar da mãe de todas as tensões: a dualidade.

Veja, a meditação é uma técnica. Você pode se perguntar, “Como isso pode me ajudar a encontrar a natureza búdica?” Funciona muito bem. Eu diria mesmo que a meditação, como a que acabamos de fazer, é provavelmente o método mais seguro, econômico, prático e amigável. Agora, a cada vez que um pensamento aparece, nós nos casamos com ele. Pode haver diferentes tipos de casamento – alguns muito positivos, como admirar o pôr do sol, fazer amor, praticar filantropia ou abraçar uma pessoa! Ou pode ser um casamento perverso e violentador, como por exemplo quando a raiva surge, “Ih, nada bom”. Depois, vêm depressão, culpa e raiva de si mesmo, por se deixar tomar pela raiva. É isso o que chamo de violentar. Você está violentando os seus pensamentos. Independentemente do que esteja acontecendo, você esqueceu o preservativo e está se comportando como um coelho. Você pode ter nove orgasmos a cada vez. Cada pingo desses orgasmos cria um monte de bebês. É por isso que existem infindáveis coelhos circulando dentro da sua cabeça, o tempo todo. Assim, você não consegue enxergar a natureza búdica. A maneira como meditamos ainda agora, nós apenas observamos tudo o que apareceu. Até o observar já contém uma pequena dose de casamento, mas dá para o gasto, por agora. É o único jeito de progredir. O que você está fazendo? Na verdade, está começando a aprender a ignorar os pensamentos. Você sabe o que significa “ignorar”? Digamos que você esteja ignorando uma pessoa numa festa — o que isso quer dizer? Quer dizer que você sabe que ela está ali, mas você não está olhando para ela, não é mesmo? Isso é o que chamamos de ignorar. Se você não viu a pessoa, isso não conta como ignorar, não é? O que aconteceu foi simplesmente que você não a viu. Durante a meditação, você observa os pensamentos; você sabe que eles estão ali, mas você os ignora. Você não alimenta pensamentos positivos, nem desencoraja pensamentos negativos. Apenas observa. Portanto, não há casamento. Nada de casamento, nada de acasalamento, nada de criação de coelhos. Você fica menos ocupado porque não precisa ficar correndo atrás de crianças, nem precisa dar de mamar. Você fica muito liberado. É por isso que fazemos meditação.

Acho que é mais ou menos óbvio que a meditação é uma coisa boa, mas praticá-la com constância é difícil. Falta de disciplina, falta de entusiasmo e falta de espaço criam a dificuldade. Principalmente a falta de disciplina. Constância é a chave. Se você fizer horas e horas de meditação, e depois passar meses sem fazer nada, você volta para a estaca zero. Se você consegue fazer cinco a dez minutos todos os dias, com constância, pelo menos dentro de um ano você vai ter algum tipo de alegria e entusiasmo ao fazer meditação. Essa alegria é difícil de desenvolver, porque a meditação é uma coisa muito chata. Não é nada divertido. Não fazer nada é duro. Aqui, estamos falando da arte de não fazer nada, e ela é bastante difícil, especialmente considerando que nós, seres humanos modernos, gostamos de resultados rápidos. Na verdade, os resultados chegam bem depressa. Mas os resultados meditativos são muito sutis. Nós gostamos de resultados tangíveis, vívidos, óbvios. Nós gostamos de Tylenol e outros analgésicos. Essa é a cultura moderna. Portanto, especialmente no começo, é difícil trazer essa alegria, porque o efeito da meditação é bastante sutil; apesar de já estar presente, não é visível.

É fácil simplesmente observar os pensamentos comuns, os mais óbvios. Digamos que você esteja meditando e ouve uma criança berrando; isso deixa você irritado, e você apenas observa a irritação. Isso é bom. É como deve ser. Há, porém, tantos outros pensamentos. Eles vieram, foram embora e voltaram diversas vezes, e você não se deu conta disso. Pensamentos muito, muito sutis. E, quando finalmente você percebe, já se passaram quinze dos vinte minutos — em meio a devaneios, você completamente distraído por pensamentos muito sutis; não como o reconhecimento da irritação, quando uma criança berra. Então, o que acontece? Você se arrepende. Bem, quando você se arrepende, está se casando de novo. O arrependimento é mais um casamento. “Nossa, eu não devia fazer isto. Era para eu estar meditando.” Você deve apenas observar esse arrependimento também. Na verdade, esse casamento é bem menos danoso, porque não há muita intimidade. Existe um pior, quando você acha que, desta vez, você não se distraiu. “Uau! Estou completamente atento a tudo. Não estou disperso”. Aí é um casamento com traje a rigor! Intimidade muito profunda! É tão difícil se soltar disso. Você realmente quer ficar ali. De todo modo, como eu estava dizendo, a constância é realmente importante. Sessões curtas, bem focadas, mas com regularidade. De acordo com Longchenpa, “Curto, muitas vezes”. Longo, mas uma vez só, não adianta muito. E, eu acrescentaria, com constância, todos os dias. Não se prenda a meditar só de manhã, ou só à noite. Faça a qualquer hora, onde puder se sentar. Então, depois de um tempo, você consegue meditar até em pé ou dançando. Acredito, porém, que para iniciantes é melhor pelo menos criar uma base de sustentação, e para isso sentar é importante.

Se você está meditando e reconhece seus pensamentos habituais, você está manifestando “presença mental” ou “vigilância” — o que em inglês é chamado de mindfulness. Mas, às vezes, é difícil lidar com emoções fortes. Se você descobre que seu namorado está traindo você, é difícil aplicar Vipassana, porque temos o hábito de acertar contas, ou querer nos vingar. Temos tanto orgulho. Ou, talvez, você tenha um problema conjugal, e os dois sabem que a separação é a única solução; mas os dois ficam esperando para ver quem vai dizer primeiro, “Vamos nos separar.” No começo, é difícil você se concentrar, porque a mente fica voltando para o problema. Porém, se você é um meditador mais maduro, quando ciúme, possessividade, orgulho ou insegurança aparecem durante a meditação, você apenas observa. Isso é bom. Mas, assim que o relógio toca, você volta para, “Vamos ver, onde é que nós estávamos mesmo?” (Rinpoche bate com o punho na palma da outra mão). De volta para a mesma história!

No entanto, se você consegue apenas observar, sem se envolver, sem se casar, aos poucos você vai amadurecer, e a parede entre o período da meditação e o período da pós-meditação vai gradualmente se desfazer. Veja, atualmente existe uma muralha entre a meditação e a pós-meditação. Tudo bem. Acho que você quase precisa disso, senão os principiantes não teriam por onde começar. Depois de um tempo, essa muralha começa a desmoronar.

Então, mesmo durante o período pós-meditativo, quando você estiver fervendo de ciúme, você vai sentir arrependimento ou culpa, vai sentir decepção ou frustração. “Por que não consigo me concentrar?” Por um lado, você sabe que não deveria se envolver com a questão, que não deveria se casar com ela, mas continua a fazer isso debaixo do próprio nariz. Porém, quando isso acontece, é hora de você ganhar uma medalha. A essa altura, você está se saindo bem. Se você puder contar, digamos, dez vezes durante o dia em que você se sentiu frustrado, decepcionado ou culpado, isso é bom. Finalmente, você está começando a entrar no grupo dos meditadores. Quando você se sente frustrado porque sua mente é dispersa, o que isso quer dizer? Raciocine! Quando você sabe que está disperso, automaticamente isso quer dizer que você sabe o que é não estar disperso. Você está bem perto da sabedoria. Então, possa você sempre sentir frustração!

Vipassana, em essência, significa entendimento extraordinário, discernimento ou visão penetrante. É chamada em inglês de insight meditation. No fundo, é meditação sobre a sabedoria. Veja, sabedoria e natureza búdica são, basicamente, uma só coisa com nomes diferentes. São iguais. Então, agora você já sabe: quando falamos de natureza búdica ou sabedoria, digamos sabedoria do tipo Vipassana, não estamos falando de nada sobrenatural, sobre-humano, divino ou algo que você tenha que cultivar. Então, do que estamos falando? A sabedoria já está presente, certo? Como uma fonte. Mas, por que não a vivenciamos? Porque criamos agitação o tempo todo, com um casamento atrás do outro. Sendo assim, como experimentar a sabedoria? Não fazendo nada, não agitando, deixando as coisas como estão. Quando você não fica entrando em casamentos, nem viajando nos seus pensamentos, a sabedoria do não-julgamento se faz presente. O que é sabedoria? Não-dualidade, não é mesmo? E o que significa não dual? De uma forma muito, muito crua, não-dualidade é basicamente não-julgamento. E aqui, tudo o que você está fazendo é observar, não se enredar, não viajar — apenas observar, ignorar. Você vê os pensamentos, mas os ignora. Não há julgamento. Pode ser apenas por um breve momento mas, naquele momento de apenas observar e não fazer nada, você já está experimentando a não-dualidade. Você já está experimentando a sabedoria. Isso é tudo o que precisamos cultivar. É tudo o que você precisa fazer. Que caminho fantástico! Não há realmente nada a perder, e tudo a ganhar. Ganhar o que? Nós temos uma compulsão de controlar, não é mesmo? Todos queremos estar no comando. Todos queremos ser os controladores. Como você controla? Com isso. Se você está emaranhado nos seus pensamentos, você não está sob controle, certo? Aqui, aos poucos, você passa a ser o controlador. Perfeito para pessoas fissuradas em controle, como nós. Vocês todos estarão no banco do motorista. Esqueçam a iluminação. Sejam apenas bons controladores. Funciona!

Dzongsar  Khyentse Rinpoche é um dos mais conhecidos mestres budistas da atualidade. Nascido no Butão tem grupos de prática em diversos lugares do mundo. Já veio ao Brasil diversas vezes. Fundou a Khyentse Foundation que promove e apoia o estudo do Dharma (ensinamentos do Buda). Leia mais sobre algumas formas da meditação budista.