Meditação nas Atividades Diárias #2

Em Qualquer Momento em Qualquer Lugar
Continuação do post “Meditação no Dia a Dia”, de Mingyur Rinpoche, trecho do livro “A Alegria de Viver”. Leia a parte 1. Novo grupo de meditação em Petrópolis ligado ao mestre Mingyur Rinpoche, informações no fim do post ou no link “grupos” no menu.

“Una-se, com a meditação, com qualquer coisa que encontrar.” Jamgong Kongtrul, The Great Path of Awalkening

Com isso em mente, vamos dar uma olhada em algumas das formas nas quais você pode praticar em sua vida cotidiana e até usar o que normalmente podem parecer distrações como suportes para repousar a mente. Os textos antigos chamam a isso de “tomar a sua vida como caminho”.

O simples ato de andar na rua pode ser uma grande oportunidade de desen­volver a vigilância. Com que freqüência você vai a algum lugar, como dirigir ao supermercado ou caminhar para um restaurante na hora do almoço, e se encon­tra no destino sem ao menos perceber como chegou lá. Esse é um exemplo clás­sico de permitir que o macaco louco atue sem controle, lançando todo tipo de distrações que não apenas impedem que você vivencie a plenitude do momento presente, mas também lhe roubam a chance de focar e treinar sua consciência. A oportunidade aqui é decidir conscientemente conduzir sua atenção ao que o cerca. Olhe para os prédios pelos quais você passa, para as outras pessoas na cal­çada, para o trânsito nas ruas, para as árvores que estão plantadas no cam inho. Quando você presta atenção ao que vê, o macaco louco se acalma. Sua mente fica menos agitada e você começa a desenvolver um senso de calma.

Você também pode voltar a atenção à sensação física de caminhar, ao mo­vimento de suas pernas, ao toque de seus pés no chão, ao ritmo de sua respira­ção ou de seu coração. Isso funciona mesmo quando você estiver com pressa e, na verdade, é um excelente método de combater a ansiedade que normalmen­te nos envolve quando tentamos chegar logo a algum lugar. Você ainda pode andar rapidamente enquanto volta sua atenção às próprias sensações físicas ou às pessoas, locais ou objetos pelos quais passa pelo caminho. Permita-se pen­sar: “Agora estou andando na rua… Agora estou vendo um prédio… Agora estou vendo uma pessoa usando camiseta e jeans… Agora meu pé esquerdo está to­cando o chão… Agora meu pé direito está tocando o chão…”

Quando você conduz a atenção consciente à sua atividade, as distrações e as ansiedades aos poucos se dissipam e sua mente se tranquiliza e relaxa. E, ao chegar a seu destino, você estará em uma posição muito mais confortável e aberta para lidar com o próximo estágio de sua jornada.

Você pode fazer o mesmo ao dirigir ou executar tarefas cotidianas em casa ou no trabalho, voltando sua atenção aos vários objetos em seu campo visual ou usando os sons como suportes. Até tarefas simples como cozinhar e comer pro­porcionam oportunidades para a prática. Ao cortar legumes, por exemplo, você pode voltar sua atenção à forma ou à cor de cada pedaço que estiver cortando ou aos sons da sopa ou do molho borbulhando no fogão. Ao comer, volte sua atenção aos cheiros e sabores que experimenta. Ou você pode praticar a medi­tação sem objeto em qualquer uma dessas situações, permitindo que sua men­te repouse simples e abertamente enquanto conduz qualquer atividade, sem apego ou aversão.

Você pode até meditar enquanto dorme ou sonha. Enquanto pega no sono, você pode repousar a mente na meditação sem objeto ou gentilmente repousar a atenção na sensação de sonolência. Você também pode criar uma oportunidade de transformar seu sonho em experiências de meditação ao re­citar silenciosamente para si mesmo várias vezes enquanto pega no sono: “Reconhecerei meus sonhos… Reconhecerei meus sonhos… Reconhecerei meus sonhos”.

Concluindo

“Quando começa a se sentir completamente desolado, você passa a se ajudar, passa a se sentir em casa.” Chogyam Trungpa, Illusion’s Game

A meditação não é uma prática de tamanho e modelo únicos. Cada indivíduo representa uma combinação singular de temperamento, histórico e habilidades. Ao reconhecer isso, o Buda ensinou urna variedade de métodos para ajudar as pessoas em todas as fases da vida e em qualquer situação a reconhecer a natureza de suas mentes e a verdadeira liberdade dos venenos mentais da igno­rância, apego e aversão. Por mais mundanos que esses métodos possam pare­cer, eles representam o coração da prática budista.

A essência dos ensinamentos do Buda consiste em que, apesar de a prática formal poder nos ajudar a desenvolver a experiência direta da vacuidade, da sa­bedoria e da compaixão, essas experiências não fazem sentido a não ser que possamos sustentá-Ias em todos os aspectos de nossa vida cotidiana. Porque é enfrentando os desafios da vida cotidiana que podemos de fato medir o quanto nos desenvolvemos na paz, na consciência e na compaixão.

Mesmo assim, o Buda nos convidou a tentar as práticas por nós mesmos.

Em um dos sutras, ele encorajou seus alunos a testar os ensinamentos pela prática, em vez de aceitá-los como teorias:

Como você derrete, corta e lustra o ouro, da mesma forma o monge analisa meus ensinamentos. Analise bem meus ensinamentos,Mas não os aceite pela fé.

No mesmo espírito, peço que tente pôr em prática os ensinamentos, para ver se eles funcionam para você. Algumas práticas podem ajudá-Io, outras não. Algumas pessoas podem ter afinidade imediata com uma ou mais técnicas, en­quanto outros métodos requerem um pouco mais de prática. Algumas pessoas podem até achar que a prática da meditação não traz nenhum benefício. Isso também é bom. O mais importante é encontrar e trabalhar com uma prática que produza um senso de tranqüilidade, clareza, confiança e paz. Se puder agir assim, você beneficiará não apenas a si mesmo, mas também todos a seu redor, e esse é o objetivo de qualquer prática científica ou espiritual, não é mesmo? Criar um mundo mais seguro, mais harmonioso e pacífico, não apenas para nós mesmos, mas para as gerações futuras.

Do livro: “A Alegria de Viver” – Yongey Mingyur Rinpoche – Págs. 202 e seguintes. Leia a parte 1.

Clique aqui e saiba sobre o grupo de meditação Tergar em Petrópolis-RJ.