A Vida como um Filme

A Vida como um Filme
Trecho do texto “Life as Cinema,” por Dzongsar Khyentse Rinpoche.
Na revista Shambhala Sun, Novembro, 2003

Imagine agora que você tenha nascido dentro de uma sala de cinema. Não sabemos que aquilo que está a se passar à nossa frente não é nada além de uma projeção. Não sabemos que aquilo é somente uma película, um filme, e que os acontecimentos que ali se passam não são reais, que não têm existência real. Tudo aquilo que vemos ser projetado – amor, ódio, violência, suspense, sensações – é, na verdade, simplesmente o efeito da luz que se projeta através do celulóide. Mas ninguém jamais nos disse aquilo, então permanecemos ali, assistindo, fissurados no filme. Se alguém tenta atrair a nossa atenção, nós dizemos, “Cale-se!” Mesmo que tenhamos algo importante para fazer, nós não queremos fazer outra coisa, ficamos completamente absorvidos e cegos perante o fato de que aquele filme não passa de uma projeção totalmente fútil.

Agora imaginemos que há alguém na cadeira ao lado que diz: “Olhe, isso é apenas um filme, não tem nada de real. Isso não está realmente acontecendo. Na verdade, isso é apenas uma projeção.” Existe uma chance de que sejamos capazes de entender que aquilo que estamos a ver é de fato um filme, que é algo irreal e sem essência.

Isso não significa que automaticamente nos levantamos e saímos do cinema. Nós não temos que fazer isso. Nós podemos simplesmente relaxar e assistir ao caso de amor, o suspense policial ou o que quer que esteja passando. Podemos vivenciar a intensidade de tudo aquilo. Mas se estivermos realmente convictos de que aquilo é mesmo uma projeção, podemos até passar o filme para frente, para trás, voltar tudo e assistir novamente, podemos fazer o que quiser. Além de termos também a opção de simplesmente parar de assistir quando quisermos, e voltar para ver aquela projeção em um outro momento, quando nos der vontade. Quando tivermos a certeza de que podemos abandonar o filme a qualquer momento que quisermos, podemos não nos sentir compelidos a fazê-lo. Podemos optar por nos sentar ali confortavelmente e assistir ao filme.

Algumas vezes certas sequências que são projetadas podem mexer fortemente com as nossas emoções. Um momento trágico pode ir de encontro ao nosso ponto franco e somos levados por aquilo. Mas agora, algo em nosso coração nos diz que o que se passa ali não é real, que não é grande coisa.

É isso que os praticantes do Dharma precisam entender – que todo o samsara, ou nirvana, é tão desprovido de essência, ou tão não-verdadeiro, quanto um filme na tela. Até que sejamos capazes de ver isso, será muito difícil que o Dharma consiga penetrar em nossas mentes. Nós nos deixaremos levar, nos deixaremos ser seduzidos, pela glória e a beleza deste mundo, por todos os sucessos e fracassos aparentes. Todavia, uma vez que formos capazes de ver, ainda que apenas por um segundo, que estas aparências não são reais, nós vamos ganhar uma certa confiança sobre isso. Mas nada disso significa que teremos que sair correndo para o Nepal ou para a Índia e nos tornarmos monjas ou monges. Podemos manter os nossos empregos, usar terno e gravata, e ir com a nossa pasta de trabalho para o escritório todos os dias. Podemos continuar a nos apaixonar, a oferecer flores para aqueles que amamos, trocar anéis. Mas alguma coisa dentro de nós nos diz constantemente que tudo aquilo é desprovido de essência.

É muito importante que nós tenhamos tal lampejo de percepção. Se formos capazes de ter um único lampejo desta percepção da realidade em toda a nossa vida, podemos ser felizes por todo o tempo que nos resta, pela simples lembrança daquele lampejo. Por outro lado, pode acontecer que, quando alguém sussurra em nossos ouvidos: “Ei! Isso é somente um filme”, nós não sejamos capazes de ouvir, pois estamos distraídos. Talvez naquele momento esteja a passar um grande acidente de carro, ou a música esteja muito alta e, por isso, não conseguimos ouvir aquela mensagem. Pode ser também que ouçamos a mensagem, mas que o nosso ego interprete mal aquela informação, então nós permanecemos confusos a acreditar que, por fim, há algo de verdadeiro e real naquele filme. Por que isso acontece? Isso acontece por falta de mérito. Mérito é incrivelmente importante. Claro que, inteligência, ou prajna, é importante. Compaixão, ou karuna, é importante. Mas mérito é uma condição primordial. Sem mérito, somos como um mendigo analfabeto e ignorante que ganha milhões na loteria, mas não sabe o que fazer com aquilo e os perde imediatamente. Mas suponha que você tenha algum mérito e que possa realmente captar a mensagem da pessoa que sussurra no seu ouvido.

De: “Life as Cinema,” por Dzongsar Khyentse Rinpoche. Shambhala Sun, Novembro, 2003