As 4 Nobres Verdades

As Quatro Nobres Verdades
por Chagdud Rinpoche

O Buda ensinou primeiro as Quatro Nobres Verdades, que começam com a verdade do sofrimento. Como seres presos no samsara, experienciamos três tipos de sofrimento: o sofrimento sobre sofrimento, o sofrimento que tudo permeia, e o sofrimento da mudança. Por que os ensinamentos budistas colocam tanta ênfase no sofrimento? É porque se entendermos porque o caminho espiritual é necessário, então nós praticaremos efetivamente. Se não soubermos que estamos doentes, não iremos a um médico. Mas uma vez tomemos conhecimento de que estamos doentes, veremos que há uma razão para procurar um bom médico e tomar o remédio do médico.

Para entender porque sofremos — a Segunda das Quatro Nobres Verdades —, podemos começar olhando para a grande variação nas experiências das pessoas. Algumas pessoas são felizes, outras são tristes; algumas desfrutam riquezas, outras são indigentes. Alguns seres, a quem chamamos bodhisattvas e budas, são espiritualmente avançados ou iluminados, enquanto outros parecem ser exatamente o oposto. Por que é que alguns são altos e outros são baixos, alguns são ricos e outros são pobres, alguns são saudáveis e outros são doentes? Quem toma estas decisões?

Algumas pessoas acham que um deus grande e poderoso determina quem sofrerá. A visão budista, entretanto, é que se nosso predicamento fosse causado por um poderoso ser externo, não teríamos a capacidade de mudá-lo. Mas esse não é o caso. Podemos transformar nossa situação porque nós mesmos a criamos. Essa transformação produz a cessação do sofrimento — a Terceira Nobre Verdade — e o processo pelo qual a transformação acontece é o caminho — a Quarta Nobre Verdade.

Nosso sofrimento é devido à negatividade de nossa mente, que conduz à fala e ações prejudiciais. Por que a negatividade surge na mente? Primeiro, apesar de todos nós, assim como todos os seres nos seis reinos, termos a natureza búddhica, não reconhecemos essa natureza. Segundo, nos agarramos à nossa percepção dualista da verdade aparente de todos os fenômenos. Apesar de nada de nossa experiência ser verdadeiro no sentido absoluto — nada é permanente ou singular no sentido de ser não-composto, ou livre no sentido de não ser afetado pelas coisas de fora —, nos apegamos a essa experiência como se fosse real. Isto conduz ao apego e aversão: rejeitamos o que não queremos e agarramos o que queremos, seguindo o puxar e empurrar da mente com ações prejudiciais, que produzem karma ruim. E então nós sofremos.

Um modo para entender este processo é sentar quietamente e permitir que a mente descanse no momento sem pensar sobre o passado ou futuro. Nesse momento, não experienciamos sofrimento. Subitamente, porém, podemos perceber algo. Nosso ato de percepção em si não cria sofrimento. Mas então começamos a perceber detalhes sobre o objeto — digamos, sua forma e cor, e fazemos um julgamento. Podemos pensar, “Isto é bonito. Gosto de sua forma e cor”. Ou pensamos, “Isto é terrível. Não posso tolerar esta coisa”. Se gostamos do objeto, pensamos, “Eu preciso disto, eu quero isto, eu preciso ter isto”. Ou se não gostamos dele, pensamos, “Eu não quero isto. Não importa como, eu devo evitar isto”. É isto que causa o problema, porque se gostarmos do que vimos, sentirmos que precisamos dele, tentarmos consegui-lo e não podermos tê-lo ou mantê-lo, nós sofremos. Ou se não gostarmos dele mas não pudermos evitá-lo, nós sofreremos. A raiz de nosso sofrimento — de toda nossa experiência — é a mente ordinária, que gera ações de corpo e fala.

Assim, como um reflexo do karma de cada indivíduo, diferentes experiências e aparências surgem. Todos os seis reinos do samsara surgem da mente. Por esta razão, todos os 84.000 métodos ensinados pelo Buda envolvem treinar e domar a mente.