A Descoberta da Bondade Fundamental -1

Trecho do livro “Shambhala: A Trilha Sagrada do Guerreiro”  de Chögyam Trungpa. O texto será dividido em duas partes por ser muito grande. Parte 2 em breve. Saiba mais sobre os livros de Chogyam Trungpa em português.

A Descoberta da Bondade Fundamental – parte I

Simplesmente pelo fato de permanecermos ali, no instante presente, começamos a sentir que podemos moldar nossa vida e até torná-la maravilhosa. Percebemo-nos capazes de sentar como rei ou rainha num trono. A majestade dessa situação revela-nos a dignidade que há em sermos tranqüilos e simples.

Grande parte do caos que existe no mundo deve-se ao fato de que as pessoas não se auto-valorizam. Como jamais desenvolveram o sentimento de benevolência ou empatia por si mesmas, não conseguem experimentar o sentimento de paz ou harmonia interior, e por isso o que projetam para os demais é igualmente desarmônico e confuso. Em vez de valorizarmos a vida, freqüentemente julgamos nossa existência como algo garantido, algo que não exige maiores preocupações, ou a consideramos um fardo pesado e deprimente. Há pessoas que ameaçam suicidar-se porque não estão recebendo da vida o que acreditam merecer. Algumas transformam a ameaça de suicídio em chantagem, dizendo que se matarão se certas coisas não mudarem. É preciso levar a vida a sério, sem dúvida, mas isso não significa exasperar-se, chegar à beira da crise queixando-se dos problemas e alimentando rancor contra o mundo. Temos de aceitar a responsabilidade pessoal pela elevação de nossas vidas.

Quando uma pessoa não se condena, quando não se inflige punições, quando relaxa um pouco mais e valoriza seu corpo e sua mente, ela começa a ter contato com a noção básica de bondade fundamental existente nela. Por isso é extremamente importante a disposição para abrir-se a si mesmo. Cultivar ternura por nós mesmos permite-nos enxergar com clareza tanto os nossos problemas como as nossas potencialidades; não nos sentimos compelidos nem a fechar os olhos aos problemas, nem a exagerar nosso potencial. Esse tipo de carinho e auto-estima é indispensável. É o ponto de partida para nos ajudarmos e ajudarmos aos outros.

Como seres humanos, possuímos uma base de trabalho que nos permite elevar nossa condição existencial e nos tornar plenamente animados. Essa base de trabalho está sempre ao nosso alcance. Temos a mente e o corpo, e eles nos são muito preciosos. É por termos a mente e o corpo que somos capazes de compreender o mundo. A existência é maravilhosa, é algo precioso. Nenhum de nós sabe por quanto tempo viverá. Logo, enquanto estamos vivos, por que não usar a vida? Mais ainda, antes de usá-la, por que não lhe dar valor?

Como descobrir essa forma de apreço? Desejá-la na imaginação ou simplesmente falar sobre o assunto não ajuda. Na tradição de Shambhala, a disciplina para desenvolver tanto a auto-estima como o apreço pelo mundo é a prática de sentar-se em meditação. A prática da meditação foi ensinada pelo Buda há mais de 2.500 anos e desde então faz parte da tradição de Shambhala. Está baseada numa tradição oral: desde a época do Buda essa prática vem sendo transmitida de um ser humano a outro. Assim, manteve-se como tradição viva, de modo que, embora seja uma prática antiqüíssima, continua atual. Neste capítulo vamos abordar com algum detalhamento a prática da meditação, mas é importante lembrar que, para compreendê-la plenamente, é preciso receber orientação direta e individualizada.

Por meditação, entendemos aqui algo básico e muito simples, não vinculado a nenhuma cultura em particular. Estamos falando de um ato simplesmente fundamental: sentar no chão, adotar uma boa postura e cultivar o sentimento de termos um espaço próprio, de termos nosso lugar na terra. Esse é o meio de nos redescobrirmos e de redescobrirmos nossa bondade fundamental, o meio de entrarmos em sintonia com a genuína realidade, sem nenhuma expectativa, sem nenhum preconceito.

Às vezes a palavra meditação é empregada para designar a contemplação de determinado tema ou objeto: medita-se sobre isto ou aquilo. Meditando-se sobre uma questão ou sobre um problema, pode-se achar a solução para eles. A palavra também está ligada à busca de uma condição mental superior, através de algum tipo de estado de transe ou absorção. Mas aqui nós falamos de um conceito de meditação completamente diferente: a meditação incondicional, sem nenhum objeto ou idéia fixados na mente. Na tradição de Shambhala meditar é simplesmente treinar nosso ser para que a mente e o corpo possam estar sincronizados. Através da prática da meditação podemos aprender a ser absolutamente autênticos, sem dissimulação: podemos aprender a viver plenamente.

A vida é uma viagem sem ponto final; é uma grande rodovia que se estende infinitamente no horizonte. A prática da meditação fornece-nos um veículo para percorrer essa estrada. A viagem está cheia de altos e baixos, de esperança e medo, mas é uma boa jornada. A prática da meditação permite-nos vivenciar todas as texturas da estrada, e é justamente nisso que consiste a viagem. Com a prática da meditação começamos a descobrir que, afinal de contas, não há em nós nenhum motivo fundamental para nos queixarmos de coisa alguma.

Damos início à prática da meditação sentando-nos no chão com as pernas cruzadas. Simplesmente pelo fato de permanecermos ali, no instante presente, começamos a sentir que podemos moldar nossa vida e até torná-la maravilhosa. Percebemo-nos capazes de sentar como rei ou rainha num trono. A majestade dessa situação revela-nos a dignidade que há em sermos tranquilos e simples.

Chögyam Trungpa, Shambhala: a trilha sagrada do guerreiro.
Tradução de Denise Pegorim. Supervisão técnica e notas de Lincoln Berkley.
São Paulo: Cultrix, s.d., p. 37-44. Copyright 1984 by Chögyam Trungpa.