A Descoberta da Bondade Fundamental – Meditação

Uma abordagem sobre a meditação e a descoberta da bondade. Continuação do capítulo 2 do livro “Shambhala: A Trilha Sagrada do Guerreiro”, de Chogyam TrungpaSaiba sobre os livros de Chogyam Trungpa em português. 

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A Descoberta da Bondade Fundamental – Meditação
Leia a parte I

Na prática da meditação uma postura reta é extremamente importante. Manter as costas eretas não é uma postura artificial. É a posição natural do corpo humano. O estranho é justamente o contrário. Uma postura descuidada, com ombros caídos e costas recurvas, impede-nos de respirar de forma adequada, além de ser um indício de que estamos começando a ceder à neurose. Assim, ao sentarmos eretos estamos proclamando — a nós mesmos e ao resto do mundo — nossa disposição para nos tornarmos guerreiros, seres plenamente humanos.

Para ter as costas eretas não é necessário fazer força e obrigar os ombros a se levantarem; a postura erguida vem naturalmente do ato de sentar com simplicidade, mas também com altivez, no chão ou numa almofada própria para meditar. Logo, se as costas estão retas, não sentimos nenhum vestígio de timidez ou constrangimento, e assim não há por que abaixarmos a cabeça. Não estamos nos curvando a nada. Por isso os ombros automaticamente se endireitam, e nossa percepção da cabeça e dos ombros começa a ficar mais aguçada. Podemos agora deixar que as pernas repousem naturalmente na posição cruzada; não é necessário que os joelhos toquem o chão. Completamos a postura apoiando levemente as palmas das mãos sobre as coxas, o que nos dá uma sensação ainda maior de estarmos assumindo de maneira adequada o nosso lugar.

Nessa postura o olhar não se perde em passeios a esmo. Temos a sensação plena de estarmos ali e não em outro lugar. Os olhos permanecem abertos, mas o olhar se inclina ligeiramente e estanca a cerca de dois metros diante de nós. Não vagueia de um lado para o outro, o que fortalece a sensação de algo deliberado e bem-definido. Essa postura real pode ser encontrada em posturas egípcias e sul-americanas, assim como em estátuas orientais. Trata-se de uma postura universal, não específica de nenhuma cultura ou época.

No dia-a-dia também devemos estar atentos à postura, à posição dos ombros e da cabeça, ao modo de andar, de olhar para as pessoas. Mesmo quando não estamos meditando podemos dignificar nossa existência. Podemos superar o constrangimento e ter orgulho de sermos seres humanos. Esse orgulho é aceitável e bom.

Assim, na prática da meditação, sentando-nos com uma boa postura ficamos atentos à respiração. Ao respirar, estamos inteiramente ali, verdadeiramente ali. Com a expiração nós saímos de nós mesmos, nosso fôlego se dissolve e logo em seguida a inspiração naturalmente acontece. Então saímos outra vez. Ocorre assim um constante “ir embora” com a expiração. Ao expirar nós nos dissolvemos, nos difundimos. Logo depois a inspiração se produz, naturalmente; não precisamos tomar conta. Simplesmente voltamos à postura — e estamos prontos para mais uma expiração. Sair e dissolver-se: chuuu…; em seguida, voltar à postura; logo depois, chuuu…, e voltar à postura.

Haverá então um inevitável clique! — um pensamento. Nesse instante nós dizemos: “Pensando”. Dizemos mentalmente, não em voz alta: “Pensando”. Rotular assim os pensamentos é uma poderosa alavanca para retornarmos à respiração. Quando um pensamento nos afasta por completo do que estamos realmente fazendo — quando já não percebemos que estamos sentados numa almofada, mas nos vemos em Nova York ou San Francisco —, nós dizemos: “Pensando”, e assim nos trazemos de volta à respiração.

O tipo de pensamento na verdade não faz diferença. Na prática da meditação sentada todos os pensamentos, sejam eles escabrosos ou benfazejos, são vistos simplesmente como pensamentos. Não são nem virtuosos nem pecaminosos. Pode-se pensar em assassinar o próprio pai ou ter vontade de fazer uma limonada e comer biscoitos. Por favor, não nos escandalizemos com nenhum pensamento que tivermos: qualquer pensamento é apenas pensamento. Nenhum deles merece nem uma medalha de ouro nem uma repreensão. Limitemo-nos a aplicar-lhes o rótulo — “Pensando” — e voltemos à respiração. “Pensando”, e voltemos à respiração.

A prática da meditação é muito precisa. Deve acertar exatamente no alvo. É um trabalho bastante árduo; porém, se nos lembrarmos da importância da postura, isso levará à sincronização entre a mente e o corpo. Sem uma boa postura, a prática será semelhante ao esforço de um cavalo manco para puxar uma carroça: nunca funcionará. Assim, primeiro é preciso sentar e assumir uma boa postura. Em seguida, tem início o trabalho com a respiração: chuuu…, sair, voltar à postura; chuu…, voltar à postura; chuuu… Quando surge um pensamento, nós lhe aplicamos o rótulo — “Pensando” — e voltamos à postura, voltamos à respiração. A mente trabalha em conjunto com a respiração, mas o corpo se mantém sempre como ponto de referência. Não trabalhamos apenas com a mente. Trabalhamos com a mente e o corpo, e quando ambos trabalham juntos, nunca abandonamos a realidade.

O estado ideal de tranqüilidade provém da vivência da sincronização entre o corpo e a mente. Se o corpo e a mente não estão sincronizados, o corpo perde vigor… e a mente se perde por um caminho qualquer. É como um tambor malfeito: o couro não está ajustado à armação, logo, ou a armação se quebrará ou o couro acabará cedendo. A tensão entre eles nunca se mantém constante. Quando a mente e o corpo estão sincronizados, então, graças à boa postura, a respiração se produz naturalmente. E como a respiração e a postura trabalham juntas, a mente dispõe de um ponto de referência para orientar-se. Como conseqüência, a mente pode sair naturalmente com a exalação.

Esse método de sincronização entre a mente e o corpo nos ensina a ser muito simples e a sentir que não somos nada especiais — somos seres comuns, extraordinariamente comuns. Nós apenas nos sentamos, como guerreiros, e desse ato nasce um senso de dignidade pessoal. Estamos sentados na terra — e percebemos que essa terra nos merece e que nós merecemos essa terra. Estamos aqui — pessoalmente, com plenitude e autenticidade. Na tradição de Shambhala, portanto, a prática da meditação é indicada para educar as pessoas a serem honestas e autênticas, fiéis a si mesmas.

Em certo sentido, deveríamos ter a sensação de carregar um grande fardo: o fardo de ajudar o mundo. Não podemos nos esquivar a essa responsabilidade para com os outros. Porém, se assumimos esse fardo como um prazer, podemos realmente liberar o mundo. O meio é este: começar por nós mesmos. Sendo abertos e honestos em relação a nós mesmos, podemos aprender a ser abertos também para com os outros. Desse modo, partindo da bondade que descobrimos em nós, podemos trabalhar com o resto do mundo. Por esse motivo, a prática da meditação é vista como um bom meio — aliás, um excelente meio — de vencer a guerra no mundo: nossa guerra pessoal e as guerras em maior escala.

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Chögyam Trungpa, Shambhala: a trilha sagrada do guerreiro.
Tradução de Denise Pegorim. Supervisão técnica e notas de Lincoln Berkley.
São Paulo: Cultrix, s.d., p. 37-44. Copyright 1984 by Chögyam Trungpa.