A Luminosidade da Mente

Trechos do livro “A Roda da Vida” do Lama Padma Samten, Ed Peirópolis. Acesse nossas páginas no facebook: budismo engajado e budismo petrópolis.

A experiência do que vemos é inseparável das nossa estruturas internas. Sempre que temos uma experiência de objetos, nosso papel de observador está presente. A mente vê a mente, ou seja, nossa mente vê os objetos conforme suas noções internas, e é a partir disso que nos relacionamos com o mundo, atribuindo significados e funções a tudo, inclusive sensações de gostar e não gostar, ou ser indiferente. Mudanças na estrutura interna provocam mudanças nos objetos que vemos e nas sensações agradáveis, desagradáveis ou de indiferença que eles provocam.

Ainda que a mente veja a mente, ficamos com a sensação de que há uma separação entre objeto e observador. Esse é o cerne do nosso problema ligado à ilusão do samsara (ciclos de nascimentos e mortes, também pode ser o termo designado para o engano ou ilusão no budismo).

Os seres produzem luminosidades específicas nas suas diversas conexões com a realidade. Não vemos o objeto mas o que ele passa a ser diante dos nossos olhos. Essa é a característica da luminosidade. Precisamos entender a vacuidade e avidya*, e também a ação luminosa da mente. (*Vidya em sânscrito significa sabedoria, visão, lucidez; avidya significa perda da visão.)

Podemos usar o exemplo de uma foto. Quando estamos imersos em avidya, não reconhecemos a luminosidade que constrói a realidade ao contemplarmos a foto. Acreditamos que o conteúdo que vemos está na foto. Entretanto, podemos perceber que os conteúdos da foto mudam com o tempo, ou seja a forma como reagimos diante dela muda. O conteúdo é inseparável do observador. A mente vê a mente. Na imagem completamente abstrata criada pela mente ou na imagem do papel, o observador é que produz a experiência do objeto.

Vamos olhar agora uma imagem tridimensional, como uma escultura, que representa simbolicamente um outro objeto. De novo podemos reconhecer que esse objeto produz em nós a manifestação da luminosidade que atribui qualidades que não estão ali. Olhamos uma imagem humana esculpida na pedra e encontramos características humanas na pedra. Mas onde há características humanas na pedra? Não há mais nós vemos. Por vermos muito mais do que a realidade da pedra, podemos pagar um fortuna por uma escultura, ou vamos a museus e galerias de arte para contemplá-las.

Paisagem é uma forma complexa de explicarmos as estruturas internas associadas às inteligências que o observador pode manifestar. O observador constrói e experimenta seu mundo de acordo com a inteligência que estiver utilizando. Estrutura interna é a base para descrever o que vemos. O que vemos é a paisagem, mas paisagem também se refere à estruturas interna, porque elas são inseparáveis. Aquilo que vemos e a nossa estrutura são a mesma coisa. Quando usamos essa linguagem, dizemos: “Todos nós estamos dentro de alguma paisagem.”

Existe uma paisagem onde jogamos lixo dentro do rio e achamos que está bem. Existe outra paisagem que catamos todo o lixo, e achamos que assim é melhor. Cada paisagem legitima um tipo de ação. O mundo parece concreto mas é definido pelo olhar, pela paisagem. O mundo é uma expressão de luminosidade e vacuidade.

Em certas épocas, como a atual, parece haver uma epidemia de maldade, de ações negativas. Nós não nos damos conta que estamos sob o efeito sutil das nossas paisagens internas e externas inseparáveis que nos convidam a ações negativas, e que eventualmente estimulam e constroem ambientes nos quais as ações negativas ocorrem como se fosse algo apropriado.

Há uma natureza luminosa que não é afetada pelas suas próprias construções. Há um controlador tentando manipular suas construções – e que acaba se tornando refém delas-, mas simultaneamente há a percepção de que a natureza não está submetida à limitação.

Acesse nossas páginas no facebook: budismo engajado e budismo petrópolis.

Leia mais um texto do Lama Padma Samten – As 5 Sabedorias do Budismo