Dharma no Natal

Um paralelo entre o budismo e o cristianismo. Ensinamento do Lama Thubten Yeshe (1935-1984) sobre o natal na visão budista. Texto publicado em português pelo extinto site Dharmanet.

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Quando nos virmos no Natal para a celebração do sagrado nascimento de Jesus, vamos fazer isso em paz, com uma boa vibração e com uma mente feliz. Acho que isso seria maravilhoso. Participar com uma disposição raivosa seria muito triste. Ao invés disso, venham com uma bela motivação e com muito amor. Não tenham discriminação, mas sim vejam tudo como uma flor dourada, até mesmo o seu pior inimigo. Então o Natal, que muitas vezes produz uma mente agitada, se tornará muito belo.

Quando vocês mudarem sua atitude mental, a visão externa também mudará. Isto é uma verdadeira mudança da mente. Não há dúvida quanto a isso. Eu não sou especial mas tive a experiência de fazer isso, e funciona. Vocês são inteligentes, então podem entender como a mente tem esta habilidade de mudar a si mesma e ao seu ambiente. Não há razão pela qual esta mudança não possa ser para a melhor.

Alguns de vocês podem pensar, “Oh, eu não quero ter nada a ver com Jesus, nada a ver com a Bíblia.” Esta é uma atitude muito raivosa e emocional diante do Cristianismo. Se vocês realmente entenderam, reconhecerão que o que Jesus ensinou foi, “Amor!” É tão simples e profundo quanto isso. Se tiverem o verdadeiro amor dentro de vocês, estou certo que se sentiriam mais pacíficos do que agora.

Como vocês normalmente pensam sobre o amor? Sejam honestos. É sempre envolvido com discriminações, não é? Apenas olhem ao redor desta sala e vejam como qualquer um aqui é um objeto de seu amor. Por que vocês discriminam tão agudamente entre amigo e inimigo? Por que vocês vêem essa grande diferença entre vocês mesmos e os outros?

No ensinamento budista, esta atitude falsamente discriminadora é chamada dualismo. Jesus disse que essa atitude é o oposto do verdadeiro amor. Portanto, há alguém entre nós que tenha o amor puro do qual Jesus estava falando? Se não, não devemos criticar seus ensinamentos ou achar que eles são irrelevantes para nós. Somos aqueles que entenderam mal — talvez conheçamos as palavras de seus ensinamentos mas nunca agimos sobre elas.

Há muitas frases belas na Bíblia mas eu não me lembro de ter lido sobre Jesus dizendo que, sem fazer qualquer coisa — sem se preparar de algum modo —, o Espírito Santo desceria sobre vocês. Se vocês não agirem do modo que Ele disse que deveriam, não há Espírito Santo existente em qualquer lugar para vocês. O que li na Bíblia tem a mesma conotação dos ensinamentos budistas sobre o equilíbrio, a compaixão e a mudança do apego ao ego em amor para os outros. Pode não ser imediatamente óbvio como treinar a mente para desenvolver estas atitudes, mas é certamente possível fazer isso. Apenas o nosso egoísmo e mente fechada podem nos impedir.

Com verdadeiras realizações, a mente não fica mais preocupada egoisticamente com a sua própria salvação. Com o verdadeiro amor, não mais nos comportamos dualistamente, sentindo muito apego a algumas pessoas, distante de outras e totalmente indiferente para o resto. É muito simples. Na personalidade ordinária, a mente é sempre dividida contra si mesma, sempre lutando e perturbando sua própria paz.

Os ensinamentos sobre o amor são muito práticos. Não coloquem a religião em algum lugar acima, no céu, e não se sintam fincados aqui embaixo, na Terra. Se as ações do corpo, da fala e da mente estiverem de acordo com a bondade amorosa, vocês automaticamente se tornarão verdadeiros religiosos. Ser religioso não significa que vocês participam de certos ensinamentos. Se vocês ouvirem os ensinamentos e os interpretarem mal, serão de fato o oposto do religioso. E é apenas por não entenderem um certo ensinamento que vocês abusam da religião.

A falta de um entendimento conduz ao sectarismo. O ego sente, “Eu sou um budista, portanto o Cristianismo deve estar todo errado.” Isto é muito prejudicial para o verdadeiro sentimento religioso. Vocês não destroem uma religião com bombas, mas sim com o ódio. Ainda mais, vocês destroem a paz da mente. Não importa se vocês expressam seu ódio com palavras ou não. Os meros pensamentos de ódio automaticamente destroem sua paz.

Do mesmo modo, o verdadeiro amor não depende da expressão física. Vocês devem realizar isto. O verdadeiro amor é um sentimento profundo dentro de vocês. Não é apenas uma questão de ter um sorriso no rosto e parecer feliz. Ao invés disso, ele surge do entendimento sincero do sofrimento de cada ser e se irradia para eles indiscriminadamente. Ele não favorece alguns poucos escolhidos com a exclusão de todos os outros.

Além disso, se alguém nos bate e reagimos com raiva ou grande alarme, chorando, “O que aconteceu comigo?”, isto também não tem a ver com uma mente que conhece o verdadeiro significado do verdadeiro amor. É apenas a preocupação ignorante do ego dentro de seu próprio bem estar. É muito mais sábio realizar, “Ser batido não me prejudica realmente. Minha delusão do ódio é um inimigo que me prejudica muito mais do que isto.” Refletir assim permite que o verdadeiro amor cresça.

Lama Yeshe nasceu no Tibet em 1935. Em 1969 fundou o monastério de Kopan no Nepal. Lama Yeshe faleceu em 1984, deixando vasta obra sobre os ensinamentos budistas, fundou junto com seu principal discípulo, Lama Zopa, a  Fundação para a Preservação da Tradição Mahayana.