20 Versos do Mahayana – Nagarjuna

Nagarjuna (c. 150 – 250 CC) é amplamente considerado um dos filósofos budistas mais importantes depois do Buda histórico. Juntamente com seu discípulo Aryadeva, ele é considerado o fundador da escola Madhyamaka (Caminho do Meio) do Budismo Mahayana. Nagarjuna também é creditado como o desenvolvedor da filosofia do sutra Prajñāpāramitā e, em algumas fontes, por ter revelado essas escrituras ao mundo, depois de tê-los recuperado dos Nagas (homens-serpentes). O texto abaixo,Os Vinte Versos Mahayana (sânsc. Mahayabavimsaka),  é um dos clássicos do budismo deixado pelo grande mestre Nagarjuna.

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Os Vinte Versos Mahayana – Mahayabavimsaka

Homenagem a Manjushjrikumarabhuta!

1.

Prostro-me ao Buda todo-poderoso,
Cuja mente é livre de apego,
Que, em sua compaixão e sabedoria,
Ensinou o inexprimível.

2.

Na verdade, não há nascimento –
Então, certamente não há cessação ou liberação;
O Buda é como o céu
E todos os seres têm essa Natureza.

3.

Nem o samsara* nem o nirvana existem,
Mas tudo é um continuum complexo
Como a face intrínseca do vazio,
O objeto da consciência última.

4.

A natureza de todas as coisas
Aparece como um reflexo,
Pura e naturalmente brilhante,
Como a natureza não-dual, tal como é.

5.

A mente comum imagina um eu
Onde não há absolutamente coisa alguma,
E concebe estados emocionais –
Felicidade, sofrimento e equanimidade.

6.

Os seis estados* dos seres no samsara,
A felicidade do céu,
O sofrimento do inferno,
São todas falsas criações, imaginações da mente.

7.

Do mesmo modo, as idéias de que a ação ruim
Causa o sofrimento, a velhice, a doença e a morte,
E que a virtude leva à felicidade,
São meras idéias, noções irreais.

8.

Como um artista amedrontado
Pelo demônio que ele mesmo pintou,
O sofredor do samsara
É assustado por sua própria imaginação.

9.

Como um homem preso na areia movediça,
Agitando-se e se debatendo,
Deste modo os seres afundam
Na confusão dos seus próprios pensamentos.

10.

Confundir a fantasia com a realidade
Causa uma experiência de sofrimento;
A mente é envenenada pela perturbação
Da consciência da forma.

11.

Dissolvendo a imaginação e a fantasia
Com uma mente de sabedoria compassiva,
Permaneça na consciência perfeita
Para ajudar a todos os seres.

12.

Assim adquirindo a virtude convencional,
Livre da teoria do pensamento interpretativo,
A compreensão insuperável é ganha
Com o Buda, o amigo do mundo.

13.

Conhecendo a relatividade de tudo,
A verdade última é vista sempre;
Descartando a idéia de começo, meio e fim,
O fluxo é visto como vacuidade.

14.

Então, tanto samsara como nirvana são vistos como são;
Vazios e insubstanciais,
Nus e imutáveis,
Eternamente brilhantes e iluminados.

15.

Como as imaginações de um sonho,
Que se dissolvem ao despertar,
Assim a confusão do samsara
Desaparece na iluminação.

16.

Idealizando coisas de nenhuma substância
Como se fossem eternas, concretas e satisfatórias,
Envolvendo-as em uma névoa de desejo,
Surge a roda da existência.

17.

A Natureza dos seres é não-nascida,
Mas geralmente os seres são considerados existentes;
Tanto os seres como as suas idéias
São crenças falsas.

18.

Nada mais é do que um artifício da mente
Este nascimento em um vir-a-ser ilusório,
Em um mundo de ação boa ou ruim.
Seguida por renascimento bom ou ruim.

19.

Quando a roda da mente pára de girar,
Todas as coisas chegam ao fim, assim,
Não há qualquer coisa inerentemente substancial
E todas as coisas são absolutamente puras.

20.

Este grande oceano do samsara,
Cheio de pensamentos deludidos,
Pode ser atravessado no barco Mahayana,
Quem poderá alcançar o outro lado sem ele?

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*Samsara – ciclos de nascimentos e mortes, também pode se referir ao engano básico da mente que leve à todo tipo de sofrimento e confusão.

*Os seis estados dos seres no samsara – se refere aos seis reinos da roda da vida, estados mentais, base da psicologia budista. No glossário do livro “Portões da Prática Budista” (1 edição) – As realidades experimentadas pelos seres presos ao samsara devido à confusão fundamental em relação à verdadeira natureza da mente e também a um veneno mental predominante: raiva ou ódio, avareza ou cobiça, ignorância, desejo e apego, inveja e orgulho.

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