Meditação e Ciência mais Pesquisas

Educação
Dados científicos robustos sobre enormes benefícios da meditação
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas — publicado No site da revista Carta Capital em 20/12/2017 16h15, última modificação 20/12/2017 17h57 – Veja aqui sugestões de livros Clique aqui

Novo livro de pesquisadores Doutores em Harvard esmiúça dados científicos sobre os benefícios da meditação e comprova que ela deve compor a educação

O livro Ciência da Meditação: Como transformar o cérebro, a mente e o corpo, recentemente publicado pela Editora Objetiva, traz fatos e dados científicos robustos acerca dos benefícios causados pela meditação, que é capaz de alterar o cérebro e, assim, as vidas das pessoas.

A autoria do livro é de Daniel Goleman e Richard J. Davidson. Goleman, pesquisador já estudado neste blog, é um dos maiores especialistas do mundo em inteligência emocional e em aprendizagem socioemocional, com mais de 800 artigos para veículos como o The New York Times e livros publicados em dezenas de países.

Davidson é pesquisador da Universidade de Wisconsin, com mais de 300 artigos científicos publicados, autor do best-seller O estilo emocional do cérebro e colaborador do 14o Dalai Lama em estudos neurocientíficos voltados para a compaixão, o altruísmo e o pacifismo.

Os dois autores são amigos desde a década de 70, quando fizeram o doutorado em Psicologia em Harvard, e, desde então, colaboram em estudos sobre a meditação, atividade que eles também vêm praticando desde aquele período.

Apesar de defensores da meditação, os autores se propõem um estudo estritamente científico. Um dos objetivos principais do livro é rever os dados científicos sobre meditação e trazer novos que possibilitem uma melhor definição dos efeitos causados por ela.

Os autores explicam que levaram tanto tempo para publicar um livro sobre o tema pois os dados científicos ainda não eram sólidos o suficiente, o que não acontece agora. O laboratório que Davidson chefia no Wisconsin, além de ser um dos mais modernos do mundo, conta com mais de 100 profissionais, dentre físicos, estatísticos, cientistas da computação, neurocientistas, psicólogos, educadores e experts em meditação. Os resultados desse hercúleo esforço são impactantes.

Eles classificam diferentes níveis de meditação:

– Nível 1 – linha pura praticada pelo budismo theravada no Sudoeste Asiático ou entre os iogues tibetanos;

– Nível 2 – as tradições do Nível 1 foram adaptadas para o Ocidente;

– Nível 3 – com maior fuga à tradição, algumas práticas saem do viés espiritualista;

– Nível 4 – modismo, como aplicativos para celulares;

– Nível 5 – vêm surgindo a partir dos estudos científicos acerca dos outros 4 níveis.

Os autores relatam alguns casos de preconceito sofrido por conta de seus estudos, mas hoje, com a quantidade e robustez dos dados, começa a ficar difícil negar os “traços alterados” deixados pela meditação.

“Quando começamos, isso parecia uma grande novidade para a psicologia moderna – se ela nos desse ouvidos. Admitimos que no início o conceito de traços alterados tinha respaldo insuficiente, salvo nosso conhecimento intuitivo adquirido no encontro com praticantes muito experientes na Ásia, as alegações de antigos textos sobre meditação e nossas próprias tentativas incipientes nessa arte interior. Hoje, após décadas de silêncio e desdém, os últimos anos têm testemunhado amplas descobertas que ratificam nosso palpite inicial” (p. 12-13 de A Ciência da Meditação).

Eles buscam, porém, focar no Nível 1 da meditação, naquelas práticas que deram início a tudo, que são mais profundas, com resultados mais significativos, por se voltarem para uma mudança maior do indivíduo, para além de meros relaxamentos ou soluções de problemas de relacionamento no trabalho, que não deixam de ser positivos.

“Uma série de descobertas obtidas com o caminho profundo impulsiona notavelmente os modelos científicos para os limites superiores de nosso potencial positivo. O alcance maior oferecido pelo caminho profundo cultiva qualidades duradouras como abnegação, serenidade, presença terna e compaixão parcial – traços alterados altamente positivos” (p. 12 de A Ciência da Meditação).

Uma das causas de ter levado tanto tempo para que os maiores estudiosos tomassem a meditação em consideração foi, além da sua confusão com aspectos religiosos, o uso de dados distorcidos por fins comerciais, algo que é comum na ciência de um modo geral.

Os autores contam, por exemplo, que eles mesmos foram abordados na década de 70 por um indiano que buscava promoção para se tornar um guru e ganhar dinheiro, mas que não conseguia demonstrar na prática os efeitos, alegados por ele, da meditação e práticas correlatas.

Aprender com o corpo

Por conta disso, os autores dizem ter sido bastante céticos e pautados contundentemente nos incontáveis testes realizados no laboratório comandado por Davidson em Wisconsin. Sobre diversos estudos científicos que comprovam os efeitos positivos da meditação, ver um de nossos textos sobre o tema.

Como visto neste blog em diferentes textos, o livro “Triplo Foco”, de Daniel Goleman e Peter Senge, este um professor de Administração do Massachusetts Institute of Technology (MIT), trata de diversas práticas com foco socioemocional que têm revelado resultados científicos consideráveis em termos de aumento de aprendizagem tanto num viés acadêmico quanto de sociabilidade e emocional.

Não sendo possível nos estender em um único texto, a análise do livro de Goleman e Davidson continuará em um artigo seguinte. Por enquanto, foquemos em alguns dos resultados científicos contundentes obtidos por eles. Num texto posterior, passaremos pelos processos de pesquisa utilizados e chegaremos até os surpreendentes detalhes dos resultados obtidos a partir de repetidos estudos acerca das práticas de meditação nos diferentes níveis.

De modo bem resumido, nas palavras dos autores, os resultados foram:

“Com as primeiras horas, dias e semanas de meditação, diversos benefícios emergem. Para começar, o cérebro dos iniciantes mostra menos reatividade amigdalar ao estresse. Incrementos na atenção após somente duas semanas de prática incluem foco melhorado, menos divagação mental e memória de trabalho aumentada – com uma compensação concreta em notas melhores no exame de admissão para a pós-graduação. Parte dos novos benefícios está na meditação compassiva, incluindo conectividade aumentada nos circuitos de empatia. E marcadores para inflamação diminuem um pouco com apenas trinta horas de prática. Embora esses benefícios venham à tona mesmo com horas de prática notavelmente modestas, tendem a ser um tanto frágeis e necessitam de sessões diárias para se manter” (p. 227 de A Ciência da Meditação).

Traremos mais exemplos no próximo texto, mas fiquemos com um caso de ótimo uso da meditação e conhecimentos correlatos na escola. Davidson realizou estudos na pré-escola com ajuda de Laura Pinger, membro do seu grupo que é especialista em grade curricular e que desenvolveu o Kindness Curriculum (Currículo da Bondade), um programa para trabalhar características socioemocionais nas crianças envolvendo bondade, compaixão e empatia.

As crianças são submetidas a diversas atividades meditativas e semelhantes, como de respiração e de atenção. Uma delas envolve exercícios de mindfulness (meditação da atenção plena): as crianças escutam um sino e prestam atenção à própria respiração, deitadas de costas com pequenas pedras sobre suas barrigas, que sobem e descem à medida em que o processo respiratório vai acontecendo.

Os pesquisadores deram adesivos às crianças, importante moeda de troca para elas, e as deixou à vontade para compartilhá-los com 1 dentre 4 candidatos: a) a sua pessoa favorita na classe; b) a pessoa de quem menos gostava; c) uma criança que não conheciam; d) uma criança com aspecto doente.

As crianças que passaram pelo curso de bondade deram seus adesivos mais às crianças de quem menos gostavam e às enfermas, enquanto que um grupo de controle, que não passou pelo referido curso, deu muito mais adesivos às pessoas favoritas.

Avaliando a chegada desses mesmos grupos ao jardim de infância, notou-se que aquelas do curso de bondade estavam bem menos autocentradas. Assim como outros estudos científicos que já apresentamos em textos anteriores, é um resultado interessante em favor da inclusão nas escolas de práticas que trabalhem a meditação, a respiração, a conexão com o outro e afins.

“Ajudar as crianças a desenvolver a bondade parece uma ideia óbvia, boa – mas no momento essa valiosa capacidade humana é deixada ao acaso em nosso sistema de ensino. Muitas famílias, é claro, instilam esses valores em seus filhos – mas muitas não o fazem. Levar tais programas às escolas assegura que todas as crianças recebam lições que fortalecerão esse músculo do coração” (p. 233 de A Ciência da Meditação).

Aprofundaremos no livro analisado, assim como na relação entre meditação e educação no texto seguinte. Sendo este um período de virada de ano, é um bom momento para administradores públicos, diretores, professores, pais, filhos etc. instituírem e começarem práticas comprovadas pela ciência como capazes de melhorarem suas vidas drasticamente. Mãos à obra!

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