O Buda não era Budista

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Se queremos nos livrar do sofrimento que infligimos a nós mesmos e aos outros – em outras palavras, se queremos ser felizes – temos que aprender a pensar por nós mesmos. Precisamos ser responsáveis por nós mesmos e examinar qualquer coisa que se afirma ser a verdade. Foi isso que o Buda fez muito tempo atrás para se libertar de seu próprio descontentamento e dúvidas persistentes sobre o que ele ouvia, dia após dia, de seus pais, professores e dos sacerdotes do palácio. Embora fosse um príncipe nascido numa família rica e poderosa, o jovem Sidarta frequentemente apenas queria escapar de tudo isso. Ele queria espaço para poder pensar independentemente sobre quem era e sobre qual era a essência do caminho espiritual. Tal liberdade de pensamento era importante na busca do Buda por uma verdade interior e para sua descoberta definitiva da iluminação. Nos tempos de hoje, mais e mais pessoas no mundo Ocidental estão seguindo os ensinamentos e o exemplo do Buda. Mas sobre o que são esses ensinamentos? O que é o Budismo?

O Budismo se parece com uma religião, mas será que é mesmo uma religião? Existem muitas definições de religião. Algumas são tão amplas que incluiriam o clube de jardinagem do seu bairro. Outras são mais restritas: seu clube de jardinagem iria precisar de um deus, de entusiasmo por esse deus e um conjunto de crenças e práticas. Todos nós temos uma ideia sobre o que religião significa para nós, mas quando começamos a falar disso – problema! (Veja sobre o livro Buda Rebelde.)

Se você fizer uma busca na internet por “religiões do mundo”, irá encontrar “Budismo” em todas as listas. Isso faz do Budismo uma religião? Isso significa que se sou um Budista, então sou “religioso”? Posso argumentar que o Budismo é uma ciência da mente – uma forma de explorar como pensamos, sentimos e agimos, que nos leva a verdades profundas a respeito de quem somos. Também posso dizer que Budismo é uma filosofia de vida – uma forma de se viver que maximiza nossas possibilidades de ser felizes.

O que o Budismo é, a esta altura, está certamente fora das mãos do Buda. Seus ensinamentos passaram para as mãos de seus seguidores milhares de anos atrás. Os ensinamentos passaram dos pedintes itinerantes às instituições monásticas, dos analfabetos aos eruditos, do Oriente esotérico ao Ocidente franco. Em suas viagens, o Budismo foi muitas coisas diferentes para muitas pessoas. Mas qual era intenção do Buda quando ele ensinava?

No início de sua própria busca espiritual, o Príncipe Sidarta deixou sua casa real, assim como seus diversos luxos e privilégios. Ele estava determinado a encontrar respostas às questões da vida que mais nos causam perplexidade. Nascemos neste mundo apenas para sofrer, envelhecer e morrer? O que está acontecendo – qual o sentido de tudo isso? Após anos vivenciando diferentes formas de práticas religiosas, ele abandonou sua austeridade e todos seus conceitos sobre sua jornada espiritual – todas as crenças e doutrinas que o levaram aonde ele estava. Ao final daquela jornada, apenas com a mente aberta e curiosa, ele encontrou o que buscava – a grandiosa mente da iluminação. Ele despertou de toda confusão. Ele viu além de todos os sistemas de crença, para a profunda realidade da própria mente – um estado de consciência clara e felicidade suprema. Junto com esse conhecimento veio uma compreensão sobre como levar uma vida significativa e compassiva. Nos quarenta e cinco anos que se seguiram a isso, ele ensinou sobre como trabalhar com a mente: como olhar para ela, como livrá-la de suas visões equivocadas, e como atingir a grandeza de seu potencial.

Aqueles ensinamentos descrevem ainda hoje uma jornada interna que é espiritual sim, mas não é religiosa. O Buda não era um deus – ele sequer era Budista. Você não precisa ter mais fé no Buda do que tem em si mesmo. Seu poder reside em seus ensinamentos, que nos mostram como trabalhar com nossas mentes para atingir nossa plena capacidade de despertar e a felicidade. Esses ensinamentos podem satisfazer nossa busca pela verdade – nossa necessidade de saber quem e o que realmente somos.

Aonde encontramos essa verdade? Apesar de podermos contar até certo ponto com a sabedoria que encontramos em livros e com os conselhos de autoridades espirituais respeitáveis, esse é apenas o princípio. A busca pela verdade genuína começa quando você descobre uma questão verdadeira – uma que venha do coração – de sua própria vida e experiência. Aquela questão vai levar a uma resposta que vai levar a outra questão, e assim por diante. É assim que a coisa se passa no caminho espiritual.

Começamos por manter a mente aberta, inquisitiva e cética em relação a tudo o que ouvimos, lemos e vemos e que se apresente como a verdade. Examinamos com a razão e testamos durante a meditação e em nossas vidas. A medida que desenvolvemos nossa percepção a respeito do funcionamento da mente, aprendemos como reconhecer e lidar com nossas experiências de pensamentos e emoções no dia a dia. Descobrimos hábitos de pensamentos equivocados e pouco saudáveis e começamos a corrigi-los. Finalmente somos capazes de superar a confusão que torna tão difícil ver a consciência naturalmente brilhante da mente. Nesse sentido, os ensinamentos do Buda são um método de investigação, ou uma ciência da mente.

A religião, por outro lado, frequentemente nos fornece respostas às grandes questões da vida desde o início. Não precisamos pensar muito sobre isso. Aprendemos como pensar e em que acreditar e nossa missão é viver de acordo com isso, e não questionar isso. Se nos relacionamos com os ensinamentos do Buda como respostas definitivas que não precisam ser examinadas, então estamos praticando o Budismo como uma religião.

De qualquer maneira, ainda temos que viver nossas vidas e corajosamente descobrir como fazer isso. Não há como escapar de se ter uma “filosofia de vida”, porque todos os dias somos desafiados a escolher uma ação ao invés de outra – gentileza ou indiferença, generosidade ou egoísmo, paciência ou culpar alguém ou a si próprio. Quando nossas decisões e ações refletem a sabedoria que adquirimos ao trabalhar com nossas mentes, isso é adotar o Budismo como uma forma de se viver.

A medida que os ensinamentos do Buda chegam até nós e passam a nossas mãos Ocidentais, o que determina o que eles serão para nós? Tudo depende de como vamos usá-los. Enquanto eles nos ajudarem a esclarecer nossa confusão e nos trazer a segurança de que podemos atingir nosso potencial, então eles estão fazendo o trabalho que o Buda tinha em mente.

Podemos usar toda a ajuda que conseguirmos, já que, por mais estranho que pareça, nós nos agarramos a nossa confusão. Estamos apegados à confusão porque pensamos que ela nos protege de algo. Mas assim como usar óculos escuros dia e noite, estamos apenas evitando ver quem realmente somos. Preferimos usar nossas “sombras”, simplesmente porque não estamos acostumados à luz brilhante de nossas mentes. Os ensinamentos do Buda – pouco importa como os classificamos – nos mostram como abrir nossos olhos para esse brilho.


Esse artigo foi originalmente publicado por Dzogchen Ponlop Rinpoche no “Huffington Post”, com o título “The Buddha Wasn’t a Buddhist”.  Traduzido por Fernando Oliveira. Revisado por Victor Miranda.

 

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