Uma mente pacífica em tempos difíceis

Uma carta de Dzogchen Ponlop Rinpoche no ano de 2016, ano do Macaco de fogo, sobre a política americana, ainda muito atual.  E podemos inserir no contexto brasileiro também. Tradução Lucas dos Santos.

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CARTA ABERTA AOS MEUS AMIGOS

Caros amigos,
Que ano do Macaco de Fogo! (2016 – Calendário Tibetano).
Seja quem for que você apoiou durante as eleições presidenciais aqui nos Estados Unidos, esse ano tem sido emocionalmente intenso. Nós temos tantas esperanças, sonhos e receios – alguns belos e outros assustadores, enquanto outros ainda podem ser um pouco dolorosos. Eu acredito que não precisamos nos preocupar tanto ou atribuir muito peso à roda dos pensamentos, que está sempre em movimento. Esse é o momento para encontrarmos um intervalo para relaxarmos e sermos compassivos e abertos com todos os seres.

Enquanto você considera e reflete sobre a recente eleição presidencial nos Estados Unidos, não importando onde você esteja no espectro de opiniões, eu tenho algumas reflexões para oferecer que podem ser úteis:

1.
Nós passamos por essas experiências em um nível individual na vida cotidiana. Porém, em uma escala mais ampla, atravessar essas experiências juntos pode nos trazer a sensação de que tudo é emocionalmente mais intenso.

O Buda ofereceu o ensinamento das experiências individual e coletiva do carma. Ele ensinou que o carma individual é mais fácil de ser transformado pela nossa própria prática, enquanto que o carma coletivo só pode ser transformado por indivíduos trabalhando juntos com os meios hábeis da ação compassiva em um grupo. Portanto, nós não devemos desanimar ou ficarmos abatidos por um estado de divisão na mente. Ao contrário, devemos ser mais vigilantes, compassivos e habilidosos, com o objetivo de ajudar a conduzir os outros, com presença mental, em direção a uma mente coletiva e unida de amor, sabedoria e paz – sem deixar que nossos hábitos e emoções negativas se tornem obstáculos. Esta é a única maneira de fazer este mundo melhor, mais compassivo e pacífico para todos os seres. Não devemos desistir de nosso espírito de bondade amorosa e compaixão!

2.
Nossa compulsão pelo controle está sempre observando para ver se as coisas estão acontecendo do jeito que queremos. Quando elas não estão, ou quando as coisas parecem estar imprevisíveis, emoções aflitivas podem aparecer – medo, ansiedade, raiva. Existe o medo do desconhecido, e não saber pode ser um lugar sombrio e assustador. Pode ser desconfortável perceber que nossa crença em ter tudo sobre controle é apenas isso – um pensamento ou desejo – o que não é a mesma coisa que saber como as coisas realmente irão acontecer.

Existem dois elementos para considerarmos aqui: nossos pensamentos internos e emoções e as ações externas e realidades do mundo de fora. É importante percebermos que sob outra perspectiva, nós podemos ver claramente como as projeções sobre as eleições dos Estados Unidos não eram reais, nem estavam perto da verdade. De maneira semelhante, nossas próprias projeções mentais sobre os “mocinhos” e “vilões” precisam ser reavaliadas com os olhos da sabedoria não dual e da bondade amorosa.

3.
Parece que as experiências pelas quais muitos de nós estamos passando são excepcionalmente intensas, polarizadas e emotivas. No entanto, sempre que uma grande mudança estiver a nossa frente, reações fortes estarão presentes. Pessoas passaram por experiências semelhantes no passado e sentiram e expressaram reações semelhantes. A realidade é que nós ainda estamos no samsara (ciclos de nascimentos e mortes – tem uma conotação de engano ou ilusão) , e o samsara, por definição é imperfeito. Nós somos comunidades e países povoados por seres imersos no samsara e por isso não compreendemos sempre aquilo que estamos fazendo. Samsara, tal como aprendemos com o dharma, significa ser ignorante, autocentrado, e cheio de emoções negativas.

O estado dividido de nossa nação aqui nos Estados Unidos é um espelho amplo e claro para nós, uma reflexão poderosa sobre o estado dual de nossas mentes. É uma época para os praticantes considerarem essa situação como parte do caminho, junto com todo o dharma, presença mental e consciência que nós aprendemos e praticamos. Essa é a forma de transformarmos nossos próprios pensamentos duais para fazermos brilhar a luz da compaixão onde for necessária.

Se pudermos nos engajar em nossa prática do dharma, com presença mental e consciência, a situação em que estamos pode se tornar uma ferramenta poderosa para o caminho do despertar. Pode nos auxiliar a trazer grande benefício para todos os seres: começando com os americanos dos Estados Unidos e se estendendo até todos os cidadãos do mundo. Os olhos de nossa nação e do mundo estão sobre nós. Enquanto praticantes do dharma e enquanto pessoas comprometidas com o trabalho com nossas emoções, nós devemos ser a âncora da calma, compaixão e sanidade nestes tempos incertos.

Em resumo, neste ano do Macaco de Fogo nós recebemos muitas oportunidades que não costumam estar disponíveis. Tem sido uma experiência tão direta dos ensinamentos do Buda sobre a mente!

De novo, por favor, não se preocupe muito. Afinal de contas, o ano do Macaco de Fogo terminará em breve, e acredito que neste momento nós já entendemos o que o “fogo” significa. Por favor, tentem relaxar e se conectar com o dharma e nosso caminho de liberdade diante deste tipo de samsara.

Com muito amor e preces,
Dzogchen Ponlop Rinpoche.
Seattle, Washington. Dzogchen Ponlop Rinpoche é autor de vários livros – dois em português – Buda Rebelde e Resgate Emocional – clique aqui para comprar