Mundo Difícil, Mente Pacífica

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Nós temos tantos tipos de sofrimento em nosso mundo – calamidades naturais, terremotos, furacões. Parece que todos os elementos estão nos atacando. Pelo menos o céu ainda não caiu.

Não conseguimos controlar as calamidades naturais, mas também não podemos negar que temos alguma responsabilidade na sua criação. Podemos não ser capazes de parar esses desastres, mas podemos reduzi-los.

Todos os nossos hábitos usuais de desejo estão tendo um impacto sério em nosso ambiente – o oceano está esquentando, a camada de ozônio tem mais buracos. E em todo lugar há mais calamidades naturais. Todas essas coisas também estão surgindo de forma interdependente. De toda forma, este coração de compaixão e bondade amorosa é o principal meio de mudarmos nosso mundo para melhor.

Em segundo lugar, se nós dominamos a sabedoria de trabalhar com a natureza interdependente, então adquirimos uma verdadeira sensação de liberdade. Essa liberdade vem da interdependência, não vem da independência. Nós pensamos que a liberdade vem da independência. Mas a verdadeira sabedoria vem quando podemos dominar a interdependência. A esse respeito, é crucial que nos conectemos uns com os outros e vejamos como podemos melhorar o mundo uns dos outros, em vez de apenas pensar: “Como posso melhorar meu mundo?”

Como podemos criar menos danos ao mundo do outro, não apenas ao “meu” mundo? É uma questão importante a considerar.

A abordagem da interdependência

Os Estados Unidos estão no continente norte-americano, longe de tudo. Nós, na América, tendemos a pensar que a poluição da Terra existe na China e em outros países. Então cuidamos do nosso próprio ambiente e enviamos toda a produção poluidora para outros lugares. No entanto, recentemente, devido aos ventos extremamente fortes, essa enorme poluição veio da Ásia à América. Então essa abordagem não vai funcionar. Se queremos o nosso próprio meio ambiente saudável e bonito, também temos que cuidar dos outros lugares. Eu me lembro que na Índia e no Nepal, quando você limpa a área fora de uma loja, você apenas limpa a calçada em frente e empurra a sujeira para o outro lado da rua. Então, uma hora depois, dois outros caras da loja do outro lado virão com suas vassouras e empurrarão a sujeira de volta para onde estava originalmente.

O que alcançamos quando consideramos apenas o “meu” mundo e não o dos outros? Nós nos tornamos realmente mais irritáveis; nos envolvemos em mais ações e reações emocionais que acabam criando mais sofrimento. E no fim das contas, o mundo inteiro se torna um mundo em sofrimento. Mas se você cuidar de si mesmo, enquanto cuida dos outros também, a história é diferente.

Quando você pede ao seu parceiro para amá-lo, isso não funciona muito bem, não é? O amor vem naturalmente. Existe um senso natural de dar e compartilhar. Um dos meus alunos me disse: “Quando você diz o seu parceiro: ‘por que você não está me fazendo feliz?’ – isso não é amor. Mas quando você diz para ele: ‘Como posso fazer você feliz?’ – então isso é amor”. Quando você diz isso, ele naturalmente fará você feliz. Só de ver um pequeno sorriso em seu rosto, isso lhe faz feliz. Então, todos estão felizes.

Assim, se continuarmos olhando para os nossos problemas, não vamos consertar isso. Em vez disso, se perguntarmos: “como posso ajudar?”, você pode imaginar? E se todos nesta sala inteira começarem a pensar dessa maneira? Se todos nós começarmos a fazer isso juntos, você pode ver quanta diferença podemos fazer em nosso mundo?

Todo desafio é uma oportunidade

Nosso mundo está realmente difícil nos dias de hoje. Existem muitos líderes no mundo que são muito hábeis em deixar você irritado. Eles são muito habilidosos em fazer você se chatear e trazer à tona tantas emoções. Geralmente sentimos que esse mundo é muito ruim. Sentimos que vivemos em um dos piores momentos de todos os tempos e sentimos que isso é muito desafiador. Por outro lado, se olharmos mais profundamente, todo desafio é uma oportunidade para nós. Se você sente que não há oportunidade, então isso representa um desafio, e veja: aí mesmo você tem uma oportunidade!

Se você puder ver essa oportunidade e puder contribuir de alguma forma para torná-la melhor, sua contribuição será ampliada milhares de vezes. Ao invés de fazer o que sempre fizemos. Podemos colocar o mesmo esforço, mas se nos aproximarmos do que fazemos com essa atitude, isso produz uma grande diferença.

É importante que tenhamos mais sabedoria de interdependência e mais compaixão, uma conexão genuína de coração a coração com os outros. Porque apenas ficar com raiva ou irritado não resolve nenhum problema. Mas quando entendemos a interdependência, o amor e a compaixão – então realmente não há nada que não possamos resolver.

Certa vez em uma entrevista, Desmond Tutu afirmou que seu pai costumava dizer a ele o tempo todo quando ele estava com raiva: “Não levante sua voz, melhore seu argumento”. Não é uma instrução maravilhosa? Em vez de levantar a voz e dizer todas essas coisas desagradáveis, podemos procurar soluções. Nós temos uma ótima oportunidade aqui.

Nos ensinamentos budistas, temos algo chamado “amadurecendo suas aspirações de maneira oportuna”. Há três elementos importantes aqui: aspiração, amadurecimento e oportunidade. Primeiro você tem que ter o desejo ou a aspiração. Em segundo lugar, você tem que amadurecer – esse desejo deve realmente crescer com sabedoria. Não basta apenas ter paixão ou desejo de mudar o mundo. E finalmente, deve ser oportuno – o momento perfeito é a oportunidade perfeita.

Em tempos de crise, a compaixão amadurece

O mundo da crise é um momento perfeito para a sua compaixão amadurecer e se desenvolver. Você pode ver isso mesmo no sentido mais comum. Por exemplo – não me entenda mal aqui, porque eu não sei nada sobre economia – mas ouvi dizer que há algo chamado “mercado de ações”. Nós realmente não vemos nada, mas há algo chamado “mercado de ações”. Quando ele está volátil, essa é uma oportunidade muito boa para alguém ganhar muito dinheiro. Quando o mundo é volátil, é um bom momento para fazer muitos pontos de bondade amorosa e compaixão.

Com base nos ensinamentos do Dharma, entendo que, junto com o aumento da compaixão genuína na profundidade de nossos corações, vem o despertar, que chamamos de iluminação. A iluminação não está necessariamente restrita a algum tipo de meditação. Também pode vir deste profundo coração de compaixão para com os seres sencientes. Esta é uma notícia realmente maravilhosa, porque em nossa vida diária, com todas as nossas obrigações familiares e tudo o mais, geralmente não meditamos com muita frequência, não é? A maioria das pessoas não faz muita meditação. Se pudermos fazer uma hora por dia, achamos que é muito. Mas um dia tem vinte e quatro horas, então, para essa hora de meditação, restam ainda 23 horas para desfazer os efeitos positivos dessa meditação.

Então, como podemos despertar, de fato, por meio da bondade amorosa e da compaixão? A cada minuto de nossos dias, ouvimos más notícias na TV e no rádio. Não é porque coisas boas não estejam acontecendo, é porque as pessoas não estão interessadas em coisas boas! As redes de mídia são constituídas por pessoas de negócios que atendem ao mercado. Quando pesquisam, descobrem que as pessoas estão interessadas em más notícias. Isso mostra que ainda não desenvolvemos um forte hábito de nos alegrar com a felicidade dos outros.

Quando vemos a boa sorte dos outros, geralmente surge inveja. Pensamos: “Por que não tenho essa oportunidade?” Assim, torna-se crucial para nós não apenas trabalhar com nossa compaixão, mas também cultivar uma sensação de alegria ou satisfação. Podemos sentir alegria com a boa sorte de outra pessoa, em vez de compará-la instantaneamente com a nossa própria situação. Oportunidades para praticar compaixão, bondade amorosa e cuidar dos outros estão presentes para nós 24 horas por dia. Ou 23 horas, se você meditar. Ou se você meditar por 15 minutos, tem 23 horas e 45 minutos.

Despertar pela compaixão

Se você faz as contas com relação à probabilidade de despertar, há muito mais chances de você atingir a iluminação através da prática da compaixão do que através da meditação sentada. A oportunidade de praticar a compaixão está sempre presente. Quando você cria um filho, quando cuida de um pai que está envelhecendo, ou cuida do seu parceiro. Você não precisa ir muito longe para praticar a compaixão.

Há pessoas no nosso país que também precisam de nossa compaixão e generosidade. Assim, podemos procurar oportunidades aqui mesmo, em vez de apenas procurar oportunidades em países do terceiro mundo.

Na vida cotidiana, a bondade amorosa e a compaixão são a chave. Você não está apenas ajudando os outros dessa maneira, você também está ajudando a si mesmo. Foram feitos estudos nos quais descobriram que todos os seres têm naturalmente esse coração de compaixão, que está presente em todos nós até certo ponto. Todos nós, todos os seres humanos, temos esse coração de compaixão. Às vezes você pode não ver, mas está definitivamente lá.

Às vezes, esse coração de amor começa com uma visão tendenciosa. Tudo bem. No começo, temos mais amor por uma pessoa do que por outra. Isso é natural. O ponto aqui é como nós levamos isso além da fronteira. Uma vez que somos capazes de fazer essa conexão de coração para coração com as pessoas por quem naturalmente sentimos amor, como podemos começar a ter essa sensação de cuidado em relação a todos os outros também? Essa é a chave para tornar o mundo um pouco melhor.

Dzogchen Ponlop Rinpoche concedeu os ensinamentos deste artigo originalmente em uma palestra pública em Roterdã, Holanda, em outubro de 2017. Traduzido por Victor Miranda. Revisado por Fernando Oliveira. Acesse a página Dzogchen Ponlop em Português no Facebook

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