A Face Feminina de Buda

Como as mulheres contribuem para a formação do budismo contemporâneo? E de que forma contribuíram no passado? Poderíamos dizer que se não fosse uma simples menina camponesa indiana , não haveria Buda e nem o budismo?

O príncipe Sidharta, que mais tarde se tornou o Buda, em alguma parte de seu caminho à iluminação, se tornou asceta muito rigoroso praticando jejum entre outras privações.  Fala-se em 80 dias sem comer nem beber nada. Os relatos dão conta de que o asceta era pele e osso(imagem abaixo) e que seus olhos afundaram em sua órbitas. Já sem nenhuma força, por tanto tempo em jejum, caído ao chão, quase morrendo, Sidharta foi socorrido por uma menina camponesa, que ao vê-lo naquela situação, derramou leite com mel em sua boca. Talvez isso tenha acontecido por mais alguns dias e o homem quase morto ressurgiu para uma nova etapa da sua caminhada que o levou à iluminação, o caminho do meio, além dos extremos do prazer e da negligência com o corpo.

Buda – depois do jejum de 80 dias

A menina camponesa, Sujata, que salvou o Buda não recebeu a devida importância nessa história tão rica. Muitas mulheres trilharam esse caminho sem serem notadas. A presença da mulher no budismo merece ser revista e resgatada. De Mahaprajapati, a tia de Siddharta, que o criou e se tornou a primeira monja, passando por Yeshe Tsogyal e Magig Labdron, Alexandra David Neel, primeira ocidental a receber a ordenação de lama, Dipa-Ma até Khandro Tsering chodron, Jetsum Kushok, Pema Chödrön, Tenzin Palmo e Charlotte Joko Beck entre outras grandes mestras, yoginis e praticantes do passado e do presente, do ocidente e do oriente. Monja Coen, Chagdud Khadro, Lama Tsering Everest, Ani Zamba, Lama Sherab, Rev. Yvonette Gonçalves, Monja Isshin entre outras mestras, monjas e praticantes, têm participação fundamental na liderança e gestão de grupos (Sangha – comunidade de praticantes do budismo) e na propagação dos ensinamentos de Buda no Brasil. (Abaixo mestras do passado e presente, do Brasil e do mundo)

Fotos-1-Mahaprajapati (tia de Buda que assumiu o papel de mãe e foi a primeira monja)- 2-Chagdud Khadro. 3-Monja Coen. 4-Lama Tsering Everest. 5-Ani Zamba. 6-Lama Sherab. 7-Lama Yeshe. 8-Monja Tenzin. 9-Pema Chodron. 10-Tenzin Palmo. 11-Joko Beck. 12-Dipa Ma. 13-Magic Labdron. 14-Arya Tara. 15-Yeshe Tsogyal. 16-Monja Namdrol. 17-Mantra de Tara Verde. 18-Monja Isshin. 19-Mandarava. 20-Joan Halifax 21-Monja Jigme Choedzin.22-Alexandra David Neel.23-Ani Choying Drolma. 24-Khandro Rinpoche.

No budismo tibetano  há muitas personificações das sabedorias femininas. Arya Tara, a princesa que fez o voto de se manifestar  e se iluminar em corpo feminino e zelar e proteger todos os praticantes, pois teria sido aconselhada por um mestre ter a rezar para ter um renascimento masculino, pois como homem alcançaria a iluminação espiritual. “Tara é o aspecto feminino de Buda. Ao compreender a natureza vazia de todos os fenômenos, ela reconheceu não haver qualquer realidade intrínseca no corpo do homem ou no corpo da mulher. Assim, assumiu o compromisso de sempre se manifestar na forma feminina, tomando o voto de liberar todos os seres dos grandes medos.” – nos lembra o mestre Chagdud Rinpoche. “Tara é um buda totalmente realizado na forma feminina. Ela não é uma deusa que adoramos mas sim uma profunda lembrança do poder curativo da bondade amorosa e da compaixão corajosa que existe nos corações de todos.” ressalta outro grande mestre do budismo contemporâneo, Dzogchen Ponlop Rinpoche. Ainda no budismo tibetano há as dakinis seres femininos que voam e são livres de quaisquer barreiras e obstáculos, simbolizam a liberdade profunda da mente de todos os seres. Kwan Yin no budismo chinês se tornou uma presença universal que transcendeu o próprio budismo, um representação feminina do Buda da Compaixão, Kanzeon no budismo japonês.

Arya Tara – manifestação das qualidades femininas de Buda

Onde há preconceito há sofrimento. Preconceito é a incapacidade de lidar com  o mundo das aparências. Se não somos capazes de nos ver nos outros e ver os outros em nós, estaremos sob o efeito de avidya, palavra sânscrita que significa “não visão” ou como mais comumente é traduzido “ignorância”, um estado de entorpecimento ou indiferença que nos impede de ver e de perceber que não vemos. Todo tipo de discriminação e separação acontece sob efeito dessa indiferença doentia. O verdadeiro amor não pode surgir nesse estado de indiferença. Nos lembra a mestra Pema Chodron: “A ideia fixa que temos de nós mesmos como sólidos e separados uns dos outros é dolorosamente limitadora. É possível se mover dentro do drama de nossas vidas sem acreditar tão fervorosamente no papel que desempenhamos. Levar-nos tão a sério, e nos dar tanta importância em nossas próprias mentes, é um problema para nós; nos sentimos justificados em ficar irritados com tudo, nos sentimos justificados em nos auto-denegrir ou em achar que somos mais espertos que as outras pessoas. A auto-importância nos machuca, limitando-nos ao estreito mundo de nossos gosto e não gosto. Terminamos morrendo de tédio com nós mesmos e nosso mundo. Terminamos nunca satisfeitos. Temos duas alternativas: ou questionamos nossas crenças ou não. Ou aceitamos nossas versões fixas sobre a realidade, ou começamos a desafiá-las. Na opinião do Buda, treinar em permanecer aberto e curioso — treinar em dissolver nossas suposições e crenças — é o melhor uso para nossas vidas humanas.”

Kwan Yin (Kanzeon – Japão)- uma manifestação do Buda da Compaixão

Sua Santidade o Dalai Lama diz que de fato o que rege o mundo não é a economia e sim a compaixão. Superar a visão utilitária do mundo, dos recursos naturais, das pessoas será fundamental para um novo paradigma.  O mestre Thich Nhat Hanh diz que a equanimidade, uma das quatro qualidades ilimitadas e um valor fundamental para o budismo inclui a capacidade de ver todos além das diferenças aparentes – “Nós eliminamos toda discriminação e preconceito e removemos todas as fronteiras entre nós e os outros.”

Nossos desafios são encontrar o equilíbrio entre o masculino e o feminino no nível externo, social; superarmos a instabilidade e as aflições no nível interno; e percebermos além da dualidade, da separação, e realizarmos a unidade fundamental no nível secreto. Qualquer avanço será sentido e favorecerá a uma sociedade mais equilibrada, pacífica e harmônica e internamente perderemos menos tempo com o que não importa e nos sentiremos mais felizes e e plenos. A reflexão e meditação mais ampla sobre o sentido e significado da palavra equanimidade  pode nos ajudar na construção de uma sociedade menos competitiva e mais cooperativa.

 

Por Miguel Berredo – Miguel é estudioso do budismo e da meditação há mais de 30 anos. Criou o Projeto Meditação para Todos, com a finalidade de facilitar o acesso de um maior número de pessoas à prática da meditação, fazendo valer a máxima da sustentabilidade – Ação local com visão global. O projeto acontece em espaços públicos da cidade de Petrópolis, especialmente todos os sábados às 10h no Museu Imperial, na região serrana do Estado do Rio de Janeiro.

Veja aqui sugestões de livros sobre Meditação e Budismo

Acesse o Instagram Budismo Petrópolis

———- Clique aqui e encontre livros de mestres e mestras sobre budismo e meditação

Michael Ash (foto do do título) criou o Yogini Project que apoia as mulheres no Dharma e preserva a memória da presença feminina. Confira o bela fotografia de Michael em Oddyans Gate e em Dharma Eye, projeto de um grupo de fotógrafos budistas que beneficia e preserva a prática e memória do Dharma.

Michaela Haas, jornalista internacional, palestrante e consultora, escreveu Dakini Power, livro que conta a história de 12 mestras do budismo contemporâneo. Assista um breve vídeo sobre o livro.

Anúncios